"Estamos aguardando a nossa hora. A gente administra a carceragem da melhor forma, mas infelizmente é uma bomba-relógio prestes a explodir", desabafou o delegado de Bandeirantes (Norte Pioneiro), Michael Rocha de França Araújo. Com capacidade para abrigar 30 presos, a delegacia já chegou a cem detentos, mas nesta quarta-feira (15) contava 91. "A Polícia Civil está em desvio de função, em situação irregular há décadas com essa custódia de presos. Aqui em Bandeirantes, dos 91 detentos, 55 são condenados. Nenhum deles era para estar aqui."

Uma ação civil pública determinou a remoção imediata dos presos para reforma do prédio da delegacia de Bandeirantes sob pena de R$ 5 mil diários em multa em caso de descumprimento. Quatro anos depois, nada foi feito. "A determinação é da Sesp (Secretaria Estadual de Segurança Pública) e se descumpre, o próprio Estado vai pagar. Então, ninguém cumpre a determinação judicial e quem paga é a população e os servidores da área de segurança pública", disse Araújo. "Ficamos o tempo inteiro em um clima de tensão. Uma simples marmita estragada pode gerar uma rebelião e se os presos quiserem fugir, vão fugir."

Em Irati (Centro-Sul), a delegacia de polícia civil também abriga um número de presos três vezes maior do que a sua capacidade. Com 32 vagas, mantém atualmente 92 detentos. "Está sempre assim e a tendência é de aumento progressivo", comentou o delegado Paulo Cesar Ribeiro. "Tem uma determinação judicial, emitida há dois anos, para transferir para presídios os condenados, que hoje são 50% deles, mas não está sendo cumprida."

No ano passado, os presos da delegacia de Irati fizeram uma rebelião e, no começo deste ano, foi registrada uma tentativa de fuga. A causa é a superlotação. "Conseguimos conter os presos nas duas situações, mas nossa situação não está sendo muito fácil", disse Ribeiro.

Em Guaíra (Oeste), as tentativas de fuga na delegacia são constantes, segundo o delegado Deoclécio Detrus. Os 205 presos disputam o espaço projetado para abrigar 64. "Estou aqui há quase três anos. Quando cheguei, eram 150 presos. Chegou a 200 e nunca mais baixou. Estamos em uma região de fronteira e recebemos detentos que cometem todos os tipos de crime, inclusive os de competência da Polícia Federal, que não tem carceragem. Todos os dias vamos empurrando alguém para dentro", disse o delegado.

No início do ano, a carceragem da delegacia de Guaíra foi interditada judicialmente e o TJ (Tribunal de Justiça) deu prazo de seis meses para que o problema seja resolvido. O prazo ainda não terminou, mas provavelmente a determinação será descumprida. "No Paraná, há várias delegacias interditadas que continuam recebendo presos. Vivemos uma apreensão constante, você não sabe o que pode acontecer. Não temos efetivo para fazer uma fiscalização mais rígida nas celas", reconheceu Detrus. (S.S.)

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