Bombas da Otan matam mais de 70 civis em Kosovo, diz Sérvia
Belgrado, 14 (AE-AP) - Aviões de combate da Otan bombardearam na madrugada de hoje (14) um comboio de refugiados albaneses étnicos, matando entre 50 e 100 pessoas, disseram autoridades iugoslavas que mostraram a repórteres uma devastadora cena de corpos carbonizados, tratores despedaçados e sobreviventes aterrorizados.
Em Bruxelas, a Otan anunciou que estava realizando uma completa investigação sobre o incidente, e que não podia fazer comentários imediatos.
Até a noite de hoje, 79 corpos haviam sido encontrados, divulgou o Centro de Mídia, administrado pelos sérvios, mas o número poderia subir já que prosseguiam as buscas entre os escombros. Sessenta pessoas ficaram feridas, incluindo cinco em condições críticas, acrescentou.
A televisão sérvia divulgou inicialmente que o ataque havia sido feito com bombas de fragmentação, mas o Centro de Mídia anunciou mais tarde que mísseis guiados a laser atingiram o comboio.
O grupo de albaneses étnicos havia deixado seu esconderijo nas florestas e parou para dormir em Korisa, uma vila nas proximidades de Prizren, cerca de 70 quilômetros ao sul de Pristina, quando as bombas explodiram, disseram sobreviventes a repórteres.
Uma equipe de televisão da Associated Press viu dezenas de corpos, incluindo os de duas crianças, totalmente carbonizados caídos nas proximidades de duas crateras ao lado de uma estrada. Um grupo de cerca de 50 mulheres e crianças aos prantos estava amontoado num porão de uma casa da vila.
"Eu não sei o número exato (de mortos). Foram muitos, todos estavam dormindo", afirmou um sobrevivente, Feriz Eminisa, com seu nariz machucado e parecendo chocado.
Na frente dele eram vistos corpos desmembrados, cerca de 20 tratores fumegantes e destroços de casas.
Uma mulher com um lenço na cabeça gritava em albanês para os repórteres: "Vocês não são meu povo... Nos mate a todos. Eu não vou falar. Eles mataram minha família."
Anteriormente, o maior número de vítimas divulgado num único ataque era de 75 refugiados mortos em 14 de abril num comboio nas proximidades de Djakovica, uma cidade do sudoeste de Kosovo. A Otan reconheceu que um disparo poderia ter-se desviado e causado "danos não intencionais a vidas civis".
Em Moscou, o Ministério do Exterior russo acusou a Otan de um "novo crime".
Zoran Andejelkovic, o governador sérvio de Kosovo, acusou a Otan de "um crime contra a humanidade sem paralelo", e de estar tentando amedrontar kosovares que querem voltar para casa.
Mas não ficou claro se os albaneses étnicos estavam tentando retornar para suas casas em Kosovo ou se unirem a milhares que fugiram ou foram expulsos por forças sérvias em nome de uma "limpeza étnica".
O sobrevivente Emini disse que ele estava rumando para a Albânia, mas outros indicaram que haviam saído de esconderijos porque acharam que era seguro voltar para casa.
Cerca de 780.000 albaneses étnicos - quase metade da população de Kosovo - abandonaram o país desde março. Os bombardeios da Otan visando forçar o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, a parar a repressão sérvia começaram em 24 de março.
Na Macedônia, a primeira-dama dos Estados Unidos, Hillary Clinton, visitou um imenso campo de refugiados, deu as mãos a crianças, disse aos pais delas que eles voltariam para suas casas, e anunciou empréstimos multimilionários para negócios no país a fim de ajudá-lo a resistir ao fluxo de refugiados.
"Não pretendemos deixar que o mal que Milosevic perpetrou a essas pessoas as mantenha longe de sua terra-natal e de suas casas", afirmou Hillary a representantes de agências humanitárias. "Este é um compromisso básico, fundamental, que é compartilhado não apenas por aqueles nos EUA que estão comprometidos com este esforço, mas por nossoas aliados também".
Mais cedo hoje, a Otan havia anunciado que tinha promovido os mais intensos ataques de sua campanha aérea de sete semanas contra a Iugoslávia.
A aliança garantiu que concentrou seus ataques contra os cerca de 40.000 soldados e policiais em Kosovo, atingindo blindados e suprimentos de armas escondidos em túneis, e que os bombardeios haviam sido particularmente intensos nos arredores de Prizren.
O porta-voz militar da aliança, general alemão Walter Jertz, classificou o 52º dia da campanha aérea de "o mais intenso já resgistrado", com 679 missões.
Entre os alvos atingidos, ele incluiu várias centrais termoelétricas que abastecem Belgrado, Novi Sad e Nis, as três maiores cidades do país. Adiantou ainda que os helicópteros antitanque Apache fizeram hoje um treinamento de tiro real na Albânia e devem participar a qualquer momento dos combates.





