Belgrado, 20 (AE-AP) - Intensos ataques aéreos da Otan contra Belgrado na madrugada de hoje (20) deixaram um hospital em ruínas, mataram três pacientes, danificaram as residências dos embaixadores da Suécia, Noruega e Espanha, e, segundo notícias, causaram danos na embaixada da Líbia.
Bombardeiros da Otan voltaram a sobrevoar a capital na noite de hoje, e fortes explosões foram ouvidas pouco antes de soarem sirenes antiaéreas.
A agência independente de notícias Beta divulgou que aviões da Otan bombardearam um depósito de combustível em Cukarica, no subúrbio de Belgrado. O depósito havia sido alvejado dois dias atrás.
Em meio a notícias de deserções no exército iugoslavo, uma nova rodada de diplomacia começou em Moscou, onde três enviados, da Rússia, Estados Unidos e Finlândia, discutiam um plano de paz.
O presidente Slobodan Milosevic disse que aceita o plano em princípio, mas com um tortuoso caminho diplomático à frente, está exigindo negociações e buscando envolver as Nações Unidas.
Sérias diferenças também persistem entre os autores do plano, a Rússia e os sete países mais industrializados, ou o G-8, sobre como pôr fim ao conflito nos Bálcãs que já deixou cerca de 800.000 albaneses-kosovares desabrigados e centenas de pessoas mortas.
Potências ocidentais estão pressionando por uma retirada total das forças de Milosevic de Kosovo e a entrada na província de uma bem-armada força de paz centrada nas nações da Otan.
Os ataques da madrugada desta quinta-feira foram os mais fortes em Belgrado desde que a embaixada da China foi atingida em 7 de maio, no que a Otan garantiu à época foi um erro que matou três pessoas e feriu 20.
A Otan não admitiu imediatamente ter atingido o hospital no distrito de Dedinje, onde Milosevic mora e trabalha, e onde existe uma base militar.
Mas a aliança reconheceu que um dos oito mísseis dirigidos para a base saiu 450 metros de curso e atingiu a base de um prédio.
Uma sala de cirurgia, um centro neurológico e uma unidade de tratamento intensivo foram virtualmente demolidos e pacientes, incluindo mulheres grávidas, foram evacuados, informaram a agência de notícias Tanjug e testemunhas.
Quatro pessoas, três pacientes e um guarda de segurança ficaram feridos, disse a ministra sérvia da Saúde, Leposava Milicevic.
Fumaça subia dos restos do centro neurológico, uma estrutura de concreto com a parte de cima explodida. Pacientes lotavam os corredores da ala do hospital.
Imagens da Associated Press Television News mostraram dois corpos no necrotério do hospital - o de uma mulher, com o topo da cabeça ensanguentado e faltando metade de seu braço direito, e de um homem, com a cabeça e face cobertos de sangue.
O complexo militar também foi atingido, e vários veículos foram visto queimando em seu pátio, segundo testemunhas.
A Suécia, que não faz parte das 19 nações da Otan, afirmou que o ataque, que estilhaçou janelas e destroçou uma porta na casa do embaixador, sublinhava a necessidade de se pôr fim à campanha aérea de dois meses contra a Iugoslávia.
Espanha e Noruega, membros da Otan, que já haviam retirado seus embaixadores, divulgaram que seus prédios sofreram danos leves. A Tanjug reportou que a embaixada da Líbia também foi danificada. Não houve feridos.
"Penso que é inaceitável usar explosivos tão poderosos quando você está querendo ser preciso no bombardeio de uma grande cidade", disse a ministra do Exterior sueca, Anna lindh.
Na tarde de hoje, dezenas de milhares de pessoas participaram de uma procissão religiosa pelas ruas de Belgrado marcando a ascensão de Cristo. O patriarca Pavle, líder da Igreja ortodoxa sérvia, rezou pela paz.
Surgiram novas notícias de soldados sérvios desertando, depois que os EUA anunciaram que 500 haviam participado de uma deserção em massa, a maioria soldados convocados servindo no norte de Kosovo.
Pelo terceiro dia seguido, a mídia em Montenegro, a parceira menor da Sérvia na Federação Iugoslava, divulgou que reservistas do exército estavam desertando e voltando para suas cidades-natal.
O jornal Vijesti publicou que cerca de 400 reservistas chegaram na quarta-feira em Aleksandrovac, a cidade de origem deles, dizendo que não voltariam para o front.
Eles recusaram uma oferta do comandante do Terceiro Corpo do Exército iugoslavo, Nebojsa Pavkovic, de tratar a ausência deles de Kosovo como uma breve licença, e afirmaram que querem o fim da guerra, segundo o jornal.
O enviado russo para o conflito, Viktor Chernomyrdin, reuniu-se em Moscou com o subsecretário de Estado americano, Strobe Talbott, e o presidente finlandês, Martti Ahtisaari, para informá-los sobre as, segundo ele, "tensas" conversações em Belgrado com Milosevic na quarta-feira. O escritório de Milosevic informou que as conversações irão continuar na segunda e terça-feiras, em Belgrado.
Entre os termos do plano do G-8 inclui-se a retirada "das forças militar, policiais e paramilitares" de Milosevic de Kosovo. A Otan quer uma retirada total de todos os 40.000 homens das forças sérvias, incluindo tropas regulares.
O plano do G-8 também prevê "uma presença civil e de segurança internacional" em Kosovo, enquanto a Otan exige uma força internacional bem armada com seus soldados como núcleo, algo que Milosevic tem rejeitado com veemência.
Em Bonn, Alemanha, negociadores da Rússia e das potências ocidentais tentarão nesta sexta-feira concordar com os termos de uma resolução da ONU pelo fim da guerra - que seria aceitável para a China e a Rússia.
Em Washington, o presidente Bill Clinton disse que a campanha de bombardeios está dando resultados.
"Precisamos nos manter concentrados e pacientes na busca de nosso simples objetivo - defender o direito de existir de um povo em sua terra sem ser sujeito a expulsão em massa e assassinato em massa", afirmou Clinton.

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