Na TV, é só tomar uma pílula, um comprimido ou um xarope para acabar com quadros de gripe, tosse, azia, má-digestão. Mas será que a grande quantidade de anúncios mostrando remédios para este ou aquele mal, sempre associado a situações felizes e saudáveis, pode induzir ou estimular o uso indiscriminado de medicamentos?
O setor é regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), através de normas e leis (leia texto na página). Mas as propagandas, na opinião de representantes de bioética e dos conselhos de medicina e de farmácia, além de influenciar pessoas a comprar cada vez mais medicamentos, também revelam uma outra realidade - de que se busca nos remédios a cura para todos os males.
O cardiologista José Eduardo Siqueira, professor de bioética da Universidade Estadual de Londrina (UEL), enfatiza que, na nossa cultura, os medicamentos são considerados a alternativa mais viável para curar doenças, se não a única. O pensamento é em parte resultado do grande avanço da ciência no último século, que trouxe respostas ''para tudo'', e parte, reflexo do hedonismo, filosofia que preconiza o prazer imediato. ''Vida e morte foram medicalizados, hoje há pílulas da alegria, do prazer, para dormir e para ficar ausente. Mas será que é bom se privar de todos os tipos de sofrimento?''.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, no mundo, de 50% a 70% das consultas médicas resultam na prescrição de medicamentos. No Brasil, em 90% das consultas o paciente sai com uma receita. E quando isso não acontece, ele fica frustrado. ''O papel do médico deveria ser o de educador, de informar que existem outras opções além do medicamento, que é sempre a saída mais fácil. Para emagrecer, por exemplo, é preciso dieta e exercícios, mas é muito mais difícil mudar hábitos'', aponta Siqueira.
O presidente do Conselho Regional de Medicina, em Londrina, Álvaro Luiz de Oliveira, reforça que a função do médico é de orientação para que os medicamentos só sejam utilizados nos casos realmente necessários, até porque ''nenhum é totalmente inócuo, todos têm efeitos colaterais''. Mas para que isso aconteça, é preciso que os profissionais estejam atualizados. ''Isto através de jornadas e congressos, e não do propagandista do laboratório. Hoje, o médico recebe em seu consultório uma 'enxurrada' de propaganda de medicamentos, e é preciso ter bom senso e estar atualizado para selecionar o que e quando utilizar'', afirma.
Antiinflamatórios e antibióticos estão entre os medicamentos mais vendidos hoje nas farmácias, segundo o presidente do Conselho Regional de Farmácia do Paraná, Dennis Bertolini. Remédios que podem ter consequências graves se usados indiscriminadamente. No caso do antibiótico, a resistência das bactérias ao medicamento. Mas, a automedicação ainda pode mascarar doenças, causar dependências e interações medicamentosas e até piorar quadros.
Por esses motivos, Bertolini se diz ''terminantemente contra'' a divulgação de medicamentos para a população, mesmo daqueles que não precisam de prescrição médica, como alguns analgésicos, antitérmicos, xaropes e pomadas. ''A propaganda só deveria ser dirigida aos profissionais que podem prescrever medicamentos através de revistas científicas'', opina Bertolini. ''Na TV, a propaganda de medicamento deveria ser abolida, principalmente com artistas, pois as pessoas compram a figura da pessoa, favorecendo o consumo desnecessário'', avalia Siqueira.
Outro grande problema, apontado por Bertolini, é a venda livre de medicamentos através da internet. ''Não há norma nenhuma (na rede) e as pessoas conseguem comprar até os importados''.

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