Paris, 23 (AE) - Vale a pena bombardear os meios de comunicação iugoslavos? A decisão dos dirigentes dos países da Otan de bombardear a TV sérvia não obteve apoio unânime na Europa. Ao contrário, está provocando uma forte polêmica sobre a conveniência de tal gesto. Os primeiros a protestar contra o bombardeio foram os dirigentes da organização Repórteres sem Fronteiras, entre eles, Alexandre Levy, lembrando que não se combate a propaganda do inimigo com bombas, mas sim com palavras e idéias.
A seu ver, a Otan cometeu mais um erro tático, até porque as poucas imagens da Iugoslávia vinham da emissora estatal, onde trabalhavam inúmeros jornalistas estrangeiros.
O ataque que provocou a morte de jornalistas e técnicos de TV abre um precedente dos mais perigosos e sem muita justificativa, segundo a Repórteres sem Fronteiras.
O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, justificou o ataque dizendo que a emissora era utilizada para alimentar a idéia de purificação étnica e precisava ser destruída. De certa forma, também o escritor Marek Halter justifica essa decisão, lembrando que é preciso bombardear os meios de informação e propaganda do inimigo. Ele não estranha que a imprensa iugoslava seja selecionada pela Otan como alvo militar dessa guerra - mesmo porque toda a mídia ocidental qualifica Slobodan Milosevic de um ditador comparado a Adolf Hitler e todos os seus instrumentos precisam ser alvejados.
"É preciso destruir a mídia desse novo Hitler", acrescenta Halter, ao contrário da posição pública assumida pela Organização Internacional dos Jornalistas.
Levy contesta a comparação, lembrando que não estamos na década de 40 e melhor seria se a Otan utilizasse sua enorme capacidade técnica de transmissão, dirigindo suas próprias mensagens para a população iugoslava, já que a mídia de Belgrado é censurada por Milosevic. Essa estratégia foi utilizada com êxito no passado, na época da guerra fria, por meio de emissões, por exemplo, da Rádio Europa Livre para os países do Pacto de Varsóvia.
Por enquanto, a Otan e os países da aliança têm dificuldade para impor seus pontos de vista na guerra da propaganda. Até agora, Milosevic parece levar vantagem. As imagens do bombardeio, por engano, de uma coluna de refugiados, assim como as da destruição de parte da infra-estrutura do país - pontes e imóveis públicos, incluindo o palácio presidencial iugoslavo -, criaram um mal-estar entre a opinião pública européia. Isso porque, apesar de todo mundo saber das ações praticadas pelas forças militares e paramilitares sérvias contra a população de origem albanesa, poucas são as imagens que têm chegado ao Ocidente, desde o início do conflito.
A selvageria do regime servo-iugoslavo tem sido pouca explorada por falta de imagens e só será verdadeiramente conhecida após o fim das hostilidades atuais, quando as forças da aliança conseguirem entrar e dominar Kosovo.

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