São Paulo, 30 (AE-DOW JONES) - O mercado acionário mundial contrariou todas as previsões neste fim de ano, de uma retração dos investidores em dezembro, como proteção contra o bug do ano 2000, e uma forte retomada em janeiro.
A corrida por ações de tecnologia ofuscou possíveis precauções com o bug e fez as bolsas mais importantes do mundo fechar 1999 batendo recordes sucessivos, até mesmo nos pregões de hoje. É o caso das bolsa européias - Londres, Frankfurt e Paris -, dos mercados asiáticos - Hong Kong, Tóquio e outros - e dos brasileiros. O mercados acionários americanos também vêm alcançando níveis recordes.
Tanto o mercado eletrônico Nasdaq quanto a Bolsa de Nova York fecharam em níveis históricos na quarta-feira e continuaram a subir durante o pregão de hoje. No fim da tarde, no entanto, houve realização de lucros nas duas maiores bolsas do mundo, que fecharam ligeiramente abaixo dos níveis recordes: o Nasdaq caiu 0,11%, para 4.036 pontos, e a Bolsa de Nova York, 0,28%, para 11.453 pontos.
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que também vinha superando níveis históricos durante o mês, ultrapassou hoje a barreira psicológica dos 17.000 pontos. Fechou em alta de 1,89%, em 17.091 pontos, com volume negociado de R$ 607,42 milhões, bastante alto para este período do ano. O Ibovespa encerra o ano acumulando alta de 151,93%. Em dólar, o Ibovespa fecha 1999 com valorização de 68,71%. Contando apenas o mês de dezembro, o índice da bolsa paulista registra alta nominal de 24,04%.
A recuperação surpreendente do cenário macroeconômico brasileiro depois da desvalorização criou um ambiente mais propício ao investimento no mercado acionário. Em novembro iniciou-se uma migração de investidores de aplicações em renda fixa para o mercado acionário, fazendo o volume médio da Bovespa quase duplicar, dizem especialistas. Durante o mês de novembro houve diversos pregões que superaram R$ 1 bilhão, nível inédito este ano. "Há uma migração importante da renda fixa para a variável, que está sustentando esse volume", disse Roberto Padovani, economista da consultoria Tendências.
A migração dos investidores em fundos de renda fixa foi reforçada por uma corrida por ações de tecnologia no mercado brasileiro. O fenômeno, que está ocorrendo há dois anos nos mercados americanos, somente neste fim de ano chegou aos mercados emergentes.
Os motivos da "tecno-euforia" não são o desempenho das empresas de tecnologia, cuja maioria normalmente registra prejuízo, mas suas promessas para o futuro. Só o comércio entre empresas via Internet deve crescer de US$ 114 bilhões em 1999 para US$ 1,5 trilhão em 2004 nos EUA, segundo um relatório recente da Goldman Sachs. Vislumbrando esse imenso crescimento, o Índice Nasdaq, que concentra ações de tecnologia, registrou este ano a maior alta de todos os tempos de um mercado americano: 84,3%. Em menos de dois meses, subiu dos 3.000 pontos para os 4.000 pontos, acima dos quais fechou pela primeira vez na quarta-feira.
A bolsa brasileira também foi beneficiada por uma perspectiva melhor em relação ao bug do ano 2000. "Tudo começou com um relatório divulgado pela agência norte-americana de classificação de risco Standard & Poors em novembro, afirmando que Brasil, México, Chile e Colômbia tinham investido na prevenção de problemas com o bug e havia pouco risco de grande caos na virada do ano", disse Roberto Padovani. Essa expectativa melhor fez com que investidores domésticos antecipassem a retomada prevista para janeiro e comprassem papéis agora para revendê-los no início do ano, quando é esperado um forte fluxo de investidores estrangeiros.
Para o diretor da Unibanco Asset Management, Jorge Simino, outra razão para a alta da Bovespa foi a forte valorização das ações da Petrobrás. Essa foi a primeira desvalorização cambial no Brasil na qual a Petrobrás pôde repassar a desvalorização cambial para os preços - o que favoreceu os resultados da empresa e ajudou a puxar a bolsa. As ações da Petrobrás são relevantes para o desempenho do índice Bovespa e também foram favorecidas pela mudança na gestão da empresa, que foi bem vista pelo mercado.
Apesar da valorização da maioria dos mercados hoje, não faltou também quem estivesse pessimista com o bug. Segundo analistas, embora a probabilidade seja de problemas mínimos na virada do ano nos Estados Unidos, há risco de o bug atacar regiões menos desenvolvidas, principalmente na ásia, Europa do Leste e Rússia.

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