São Paulo, 04 (AE) - A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) despencou hoje - fechou em queda de 6,4% - e o dólar disparou, chegando a subir 2,14%, forçando a intervenção do Banco Central (BC) para baixar a cotação. No segundo dia de negócios do ano, o mercado brasileiro manteve-se altamente influenciado pelo de Nova York, que desde segunda-feira registra forte realização de lucro. A Bolsa de Nova York caiu ontem mais de 350 pontos, fechando com desvalorização de 3,2%.
"O mercado ficou assustado", resumiu o diretor da área de Renda Variável do BankBoston, Julio Ziegelmann. O executivo explica que o movimento não se restringiu ao Brasil. Ele atingiu as bolsas de todo o mundo. "E uma correção forte em Nova York afeta a economia mundial." Aqui, destacou, é natural a bolsa cair 6%, mas lá não é comum haver uma queda de mais de 3%. "O desempenho de ontem acendeu a luz vermelha", disse.
O início de 2000 está contrastando com o fim de 1999. Especialmente nos últimos dias do ano, com os temores do bug se dissipando, os mercados passaram a antecipar um início de 2000 sem problemas e a melhora do fluxo de investimentos para os países emergentes. Somente a Bolsa de Nova York subiu 12,39% nos últimos cinco pregões do ano. Segundo analistas, no entanto, essa perspectiva para os mercados emergentes, incluindo o Brasil
continua otimista no médio prazo, apesar da queda de hoje.
A expectativa de alta dos juros depois da divulgação de mais um dado sobre o desempenho da economia americana derrubou as previsões de um início de ano tranquilo. Além disso, Alan Greenspan foi nomeado ontem para mais um mandato na presidência do Federal Reserve (o Banco Central dos EUA). Isso indica que se mantém a política atual de alta das taxas de juros para neutralizar as pressões inflacionárias.
Esses fatos desencadearam um processo mundial de realização de lucros. A bolsa brasileira, que registrou uma valorização de mais de 150% no ano passado, seguiu o mesmo caminho: realização de lucros.
A possível alta dos juros norte-americanos também acabou pressionando o mercado cambial brasileiro, levando o BC a intervir, vendendo dólares no período da tarde. Taxas mais altas lá fora representam possibilidade de redução do fluxo de capitais para o Brasil, além do encarecimento da dívida brasileira no exterior.
Quando a moeda atingiu R$ 1,8600, quase no fim da tarde, o BC ligou para algumas instituições pedindo preço. Operadores surpreenderam-se com a demora do BC em vender dólares para reduzir a pressão sobre a moeda. No fim de dezembro, bastava a cotação ameaçar bater em R$ 1,83 que o BC ligava para os bancos solicitando preço de venda, disseram. A última intervenção do BC ocorreu no dia 27 de dezembro.
A atuação do BC surtiu resultado. O dólar fechou em alta de 1,87% a R$ 1,855. Pelo menos foi dessa forma que o mercado interpretou a declaração do presidente Fernando Henrique sobre os limites das oscilações do dólar. Os títulos da dívida externa brasileira também sofreram o impacto proveniente de Nova York. Os C-Bonds caíram 3% para 72,750 centavos de dólar.