BOLLYWOOD16/Mar, 11:58 Por Carla Power e Sudip Mazumdar Bombaim (AE-NEWSWEEK) - Os Estados Unidos não são o único país do mundo que sabe criar fantasias para exportação. Numa pesquisa feita em todo o mundo pela BBC Online para eleger o maior astro do milênio, Tom Cruise ficou fora da lista e Marilyn Monroe pegou apenas o nono lugar. O vencedor foi um homem de 57 anos, nascido em Allahabad, na Índia. Ambitabh Bachchan - ou "o grande B", como é conhecido por milhões de filmes do cinema indiano - é um megastar há três décadas. Seus fãs estão espalhados pelo mundo, das vilas do Rajistão às cidades da Austrália, passando pelos subúrbios de Nova Jersey. E todos são apaixonados por ele. "Se você não consegue realizar seus sonhos, pode realizá-los por meio de Bachchan", afirma o estudante egípcio Mohammed Galal, de 19 anos, depois de ver To Defend Love, sucesso do ator atualmente em cartaz no Cairo. Quando o Planet Hollywood de Dubai foi inaugurado, em 1998, Sylvester Stallone deveria ser a grande atração da festa. Mas Bachchan também apareceu e a multidão simplesmente ignorou Rambo. O Ocidente pode ter os maiores estandes no grande bazar mundial do entretenimento, mas não é o único vendendor no mercado. A globalização não é apenas um sinônimo de americanização e a prova disso está na recente expansão da indústria indiana do entretenimento. Para centenas de milhões de fãs em todo o mundo, é Bollywood, a indústria cinematográfica indiana, e não Hollywood, que fabrica sonhos e fantasias. E os poderosos chefões dos estúdios indianos não só produzem filmes para 1 bilhões de pessoas no sul da ásia - os chamados desis - como também programas de TV, músicas e novelas para exportação. Atraídas pela crescente classe média indiana e por um ambiente mais favorável aos investimentos, empresas estrangeiras estão correndo para Bombaim, financiando filmes e músicos. Esses recursos já estão ajudando a cultura pop da Índia a atingir um público ainda maior. E pode ter em breve um outro efeito positivo: livrar a imagem da indústria cinematográfica indiana de sua antiga associação com o submundo do crime. Para investidores indianos e estrangeiros, a diáspora do sul da ásia - milhões de pessoas em situação financeira relativamente boa e determinadas a manter viva sua tradição cultural - é uma audiência garantida. Estados Unidos e Grã-Bretanha, com grandes populações de desis, respondem por 55% das vendas de ingressos internacionais de Bollywood. Quando Taal - um musical que gira em torno de um triângulo amoroso - , estrelado pela megaestrela e ex-Miss Mundo Aishwarya Rai, estreou no Ocidente no ano passado, permaneceu por seis semanas na lista das maiores bilheterias americanas. Bollywood, porém, tem milhões de fãs não-indianos no Oriente Médio, áfrica e Sudeste Asiático. Os ciganos dos países do Leste Europeu sintonizam a Sony Entertainment Television, assim como fãs das Filipinas e das Ilhas Fiji. Em Israel, o sucesso Dil to Pagal Hai lota os cinemas de Tel Aviv, bem como Halev Mistagya (Crazy Heart). No mundo árabe, o público prefere os filmes de Bollywood aos de Hollywood. "Os sucessos de Bollywood são hoje parte integrante da cultura árabe", afirma Ahmed Kamal, crítico de cinema egípcio. Na capital da Tanzânia, cinemas ao ar livre exibem os mais recentes lançamentos indianos com intérpretes postados diante da tela para traduzir os diálogos. Em Zanzibar, adolescentes que falam swahili andam pelas ruas cantando músicas indianas sem entender uma palavra do que dizem. "Os produtos culturais indianos são aceitos globalmente", afirma o diretor e produtor Subhash Ghai. "Nenhuma outra produção cultural, exceção feita à de Hollywood, tem tamanho alcance e ela está crescendo." As reformas econômicas indianas estão acelerando esse processo. No ano passado, o governo isentou os lucros do setor obtidos no exterior do pagamento de impostos.Como resultado, as empresas locais centraram forças no mercado externo. As exportações de filmes indianos saltaram de US$ 10 milhões há uma década para US$ 100 milhões em 1999 e há quem diga que vão atingir os US$ 250 milhões este ano. Essa quantia é café pequeno, se comparada aos US$ 6,7 bilhões de lucro que Hollywood obtém no exterior, mas, à medida que o mercado cresceu mesmo multinacionais como Sony e Universal passaram a se interessar pela indústria indiana do entretenimento. Desde que o governo começou a facilitar o ingresso de capital estrangeiro no país, em 1991, essas empresas se instalaram em Mumbai, tendo como alvos os mercados interno e externo. O executivo Amit Khanna diz que a expansão da cultura pop indiana é uma espécie de Pax Indiana - numa referência à Pax Britannica dos colonizadores -, um império feito de filmes que combinam drama, dança e música, canções pop da Índia e novelas. "Se o antigo cinema indiano era uma arma para expulsar os britãnicos do país, os cineastas do século 21 devem usá-lo como instrumento para divertir o mundo", é um dos lemas de Bollywood. E os satélites e bons vendedores estão fazendo exatamente isso. Há dois anos, a bordo de um iate no Mediterrâneo, o bilionário do aço Lakshmi Niwas Mittal, o magnata da metalurgia Gokul Binani e o distribuidor cinematográfico Kishore Lulla decidiram que os mercados do além-mar estavam prontos para ser desenvolvidos. Por que então não usar o sistema de satélite para distribuir um canal Bollywood 24 horas por dia? A Eros International de Lulla já detém os direitos sobre mil filmes indianos, que distribui para cem países. No fim do ano, o B4U - ou Bollywood For You ­- foi lançado na Grã-Bretanha e no mundo árabe e em fevereiro chegou aos Estados Unidos, com seus locutores que falam hinglish, inglês temperado com hindi. "B4U quer ser um jogador do mercado global", diz Ravi Gupta, executivo da emissora. "Queremos criar uma plataforma importante para Bollywood no cenário internacional." O B4U enfrenta concorrência pesada. Subhash Chandra, ex-comerciante de arroz, fundou a Zee Network, a primeira emissora não estatal a fazer sucesso na Índia, em 1992, logo após a abertura econômica. Seis anos depois de fazer uma joint-venture com Rupert Murdoch, chandra comprou a parte de seu sócio por US$ 300 milhões no ano passado. Sua Zee Network está produzindo shows de TV, filmes, músicas e sites na Internet. Além de atingir 23 milhões de casas na Índia, ele tem 30 milhões de espectadores em 120 outros países. Ele agora está envolvido num projeto de US$ 755 milhões para pôe em órbita um satélite indiano em 2002. Atraído pelo crescente poder de compra da classe média indiana e pelo potencial de vendas para o exterior, o capital estrangeiro desembarcou na televisão. Murdoch está de volta: no início do ano, sua Star Plus anunciou novos e ousados planos de competir com a Zee, incluindo aí a infusão do tempero local, com o aumento dos programas em hindi e hinglish. A abertura da economia também fez arrefecer a xenofobia do setor. Quando a Sony se estabeleceu na Índia em 1991, comentaristas dos jonrais nacionalistas alertaram sobre os "riscos de contaminação" da cultura indiana pelo colonizadores high-tech. Para tranquilizar os indianos, a Sony Entertainment Television (SET) veiculou um fantástico vídeo ao som do hino nacional, Hail, Mother India, com uma gigantesca bandeira do país e dezenas de dançarinos em trajes típicos dirigidos por A. R. Rahman, popular diretor musical da Índia. "Desde o início, queríamos participar da cultura local e dar aos artistas indianos uma palco global para mostrar sua arte", afirma Shridhar Subramaniam, diretor de marketing da Sony Music. A sedução funcionou. Um ano depois a Sony já conquistara 13% dos telespectadores. Hoje, a Sony tem uma produtora de filmes, três canais de TV e uma companhia de música hindi. Com sua programação de filmes, game shows e novelas, a Sony em hindi é vista em 126 países e no ano passado registrou um faturamento de US$ 100 milhões. A Sony-Columbia começou a distribuir filmes indianos em junho. William Pfeiffer, diretor da Sony Asia com sede em Hong Kong, diz que o sucesso superou as suas mais loucas expectativas. O terceiro canal da empresa, o Sony Max, é dedicado a partidas de críquete e videoclipes transmitidos para uma audiência global. Tanto a Universal quanto a Warner se instalaram em Mumbai no ano passado. Os estrangeiros podem muito bem modernizar a televisão indiana. Embora a Sony cobre pelo Sony Max, ela ainda não cobra assinatura da SET. "No dia em que os telespectadores começarem a pagar, nem que seja US$ 1, o dinheiro vai rolar", afirma Kunal Dasgupta, presidente-executivo da Sony India. A distribuição do sinal a cabo na Índia ainda é feito por operadoras e locais e por uma rede de pirataria que chega até as favelas. Assim que as grandes empresas desembarcam no país, compram as pequenas operadoras e mudam o sistema de codificação da imagem. "Alguém ainda vai ganhar rios de dinheiro com isso" sentencia Dasgupta. As empresas estrangeiras também estão interessadas em música. O pop da Índia foi responsável pela venda de 300 milhões de CDs no ano passado, um número que coloca o país como o segundo mercado fonográfico mundial, perdendo apenas para os Estados Unidos. "Hoje, as pessoas têm como comprar coisas como discos", diz R. V. Shrikhande, da Indian Music Industry, grupo com sede em Mumbai. "Antes a classe média era pequena e não tinha dinheiro de sobra", explica. De olho no mercado global, Sony, EMI e Polygram estão investindo em cantores locais. A Sony comprou os direitos da trilha sonora do blockbuster Kuchh, Kuchh Hota Hai (Something Happens), estrelado por Shahrukh Khan, o Tom Cruise indiano, há 2 anos. Cerca de 8 milhões de CDs foram vendidos, algo inédito em termos de trilha sonora. No início dos anos 90, o Channel V - da News Corp. de Rupert Murdoch - e a MTV começaram a exibir clipes indianos. Ao longo da década, o hindi-pop - um mix de som folclórico do sul da ásia e da batida funk ocidental - foi se tornando incrivelmente popular e os lucros da indústria fonográfica registraram um crescimento anual da ordem de 30%. No exterior, apresentações de astros do cinema e da música servem para esquentar ainda mais a paixão dos fãs. Eles estão nos palcos de Nova Jersey, da Califórnia e até na Flórida e em Chicago. Em 1998, cerca de 11 mil pessoas foram à Universidade de Illinois em Chicago para ver Shahrukh Khan, faamoso por seu charme e por suas interpretações cheias de dinamismo. A maioria dos fãs era de origem asiática, mas ele levaram seus amigos não-asiáticos para o show. E assim o gosto pelo pop indiano vai se espalhando. "Os fãs são loucos por ele, mesmo sem entender bem os filmes", diz Nadia Hudda, gerente de uma locadora na Little India de Chicago. "As mulheres adoram Khan", afirma. Sex appeal é uma das maneiras de vender filmes indianos para platéias estrangeiras. Mas, em alguns países em desenvolvimento é justamente o caráter não-americano que atrai a platéia. Os filmes idilicamente românticos com seus números musicais (a censura indiana não permite cenas de sexo) caem muito bem nos países mais conservadores. Entre uma comédia sobre divórcio com Steve Martin e um filme que exalta as virtudes de Deus e da família, árabes, africanos e espectadores do Sudeste Asiático ficam com o segundo. A publicidade do sucesso Hum Saath Saath Hain (We Stand United) tinha a frase: "A família que reza e come unida permanece unida." "Os filmes indianos sempre terminam bem, são histórias de amor com muita música e dança", explica Khanna, diretor do Plus Channel, de Mumbai, que produz filmes, programas de TV e músicas. "É isso que atrai o público não-indiano no mundo inteiro." No Oriente Médio, o sentimento anti-americano também trabalha a favor de Bollywood. "Nosso preconceito contra os filmes americanos cresceu", afirma Assem Kamel, colunista político egípcio. "A política do governo dos EUA afetou bastante a popularidade dos filmes de Hollywood no mundo árabe." Isso não impede os americanos de ver e gostar da produção indiana. Nos últimos três anos, três grandes distribuidoras da Índia se instalaram nos Estados Unidos. Em Fremont, no Vale do Silício, foi inaugurado o Naz8 Cinema, o primeiro multiplex dedicado apenas a Bollywood, onde se vende samosas e naan ao lado de pipocas e refrigerantes. Mesmo no sul da Flórida, os filmes de Bollywood são exibidos em 16 cinemas de sete cidades. "Vamos ao cinema para manter nossa cultura viva" diz a dona de casa Sameera Biswas, de Ft. Lauderdale. Essa cultura, porém, está se transformando com seu público. Bollywood começou a fazer filmes capazes de agradar a públicos mais ocidentalizados. Assim, produtores de Mumbai têm rodado sequências em locações exóticas na Suíça e na Escócia, com cenas açucaradas filmadas com lentes cobertas de vaselina. Hoje, as histórias se passam em Londres e Nova York ou mostram encontros de indianos nativos em países estrangeiros. No megassucesso de 85 Dilwale Dulahniya Le Jayenge (Braveheart Will Win the Bride), produzido por Yash Chopra, um rapaz indiano que vive na Inglaterra vai para a Índia e conquista a garota que estava sendo forçada a um casamento arranjado por seu pai. A Inglaterra tem sido cenário tão constante nos seus filmes, que em 1998 o British Tourism Authority deu um prêmio a Chopra, que está ambientando seu novo filme Mohabbatein (Love Stories), com Shahrukh Khan e Aushwarya Rai novamente no país. A Internet, com dezenas de sites dedicados às fofocas de Bollywood, também se transformou numa grande promotora da cultura pop indiana. No desiclub.com, 1 milhão de visitantes por mês trocam informações sobre festas, clubes e as últimas de Bollywood; o chaitime.com, site de cultura do sul da ásia com sede na Filadélfia, oferece a seus 750 mil visitantes mensais desde uma novela chamada Young and Desi (Jovem e do sul da ásia) até discussões sobre quantas vezes Aishwarya Rai muda seu penteado em Taal. O sucesso do site é tanto que recentemente ele recebeu uma injeção de capital e já faz planos para a abertura de escritórios em Mumbai e Londres. Os estrangeiros estão invadindo a Índia para empacotar e vender uma cultura indiana globalizada. Mas resta saber se vão alterar a estrutura do negócio ou apenas os filmes. A longo prazo, Bollywood será engolida por Hollywood e seus dólares? Os executivos indianos prevêem que o dinherio estrangeiro vai ajudar a eliminar as práticas ilegais do cinema local. Até o ano passado, quando as autoridades de Nova delhi declaram a indústria cinematográfica como negócio legítimo, Bolyywood era dominada por chefões do submundo, que financiavam filmes e embolsavam enormes fatias do lucro. Os bancos evitavam o setor e produtores e atores eram constantemente ameaçados por gângsteres - muitos recebiam proteção policial. Em janeiro, o produtor Rakesh Roshan foi baleado na porta de seu escritório em Mumbai depois de se recusar a entregar os direitos de distribuição de seus filmes a um desses chefões. Empresas como a Sony e a Universal não vaõ apenas exigir transparência na contabilidade, mas serão uma alternativa financeira á máfia local. "Assim que eles começarem a jogar pesado, a indústria toda vai mudar", afirma Khanna. "Foram-se os dias da extorsão." Diretores admitem que já começaram a ajustar seus tradicionais filmes românticos com o objetivo de atingir o público de outros países, mas garantem que a alma da cultura pop indiana não será alterada a despeito de todo o dinheiro e de todo interesse estrangeiro. Bollywood vende cerca de 6 bilhões de ingressos por ano - 15% desse total no exterior. E os lucros estão crescendo. Por que Hollywood mudaria alguma coisa nesse esquema? O dinheiro estrangeiro vai continuar a entrar no país, os grandes diretores indianos vão continuar produzindo cerca de 800 filmes por ano e os atores vão continuar dançando e cantando. (Tradução de Ruth Helena Bellinghini) Colaboraram Anna Kuchment em Nova York; Gameela Ismail, no Cairo; Ginanne Brownell, me Londres; Robina Riccitiello, no Vale do Silício; Catharine Skipp em Miami; e Kate N. Grossman, em Chicago.

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