Bolivianos detidos no Paraná iam trabalhar como escravos
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terça-feira, 14 de setembro de 2004
Luciana Pombo<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Trinta e cinco bolivianos que foram detidos pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Céu Azul (51 km a oeste de Cascavel) tiveram que deixar o Brasil anteontem, depois de serem identificados pela Polícia Federal (PF). Eles entraram ilegalmente no País e não vistaram o passaporte para permanência de turista, que pode ser dada provisoriamente por período que varia entre um a 90 dias, dependendo da decisão da autoridade policial.
De acordo com a assessoria de imprensa da PF de Foz do Iguaçu, os bolivianos contaram que trabalhariam por comida e moradia numa tecelagem de São Paulo, o que caracterizaria trabalho escravo. Por essa razão, eles foram obrigados a deixar o Brasil e a empresa paulista deverá ser vistoriada para evitar que estrangeiros ou brasileiros trabalhem em regime escravo ou semi-escravo. De acordo com os policiais federais, não é rotineira a detenção de estrangeiros no Brasil com intuito de trabalhar.
Entretanto, essa foi a segunda detenção no Paraná. A primeira foi no início do ano, quando um grupo de chineses também pretendia se deslocar para trabalho numa fábrica de roupas do Norte brasileiro. Os bolivianos foram detidos às 19 horas da última segunda-feira quando estavam sendo transportados para São Paulo num ônibus. O motorista e o guia turístico, que estavam no ônibus, foram detidos e prestaram depoimento na PF. Outros dois brasileiros foram presos por descaminho com 55 caixas de brinquedos encartelados.
O Ministério do Trabalho e Emprego informou ontem que de janeiro a julho de 2004 148,8 mil empresas foram fiscalizadas com 13 milhões de empregados. Das fiscalizações, resultaram 30,7 mil empresas autuadas em flagrante por irregularidades e 405,2 mil funcionários foram registrados durante a ação fiscal. O governo federal estima que existam no Brasil 25 mil trabalhadores escravos.
De janeiro a agosto deste ano, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel conseguiu resgatar 1.653 trabalhadores em condições da escravidão em 209 propriedades rurais em 11 estados. Foram feitos 1.459 autos de infração e colhidos R$ 3,1 milhões em indenizações trabalhistas. A assessoria de imprensa da Delegacia Regional do Trabalho (DRT) informou ontem que não existe registro de trabalho escravo no Paraná. Apenas uma denúncia deste tipo de trabalho foi registrada no Norte Pioneiro numa fábrica de vestuário, mas a fiscalização não conseguiu constatar a prática de trabalho escravo.
Em outubro do ano passado, foram descobertos nove funcionários numa padaria em Curitiba que viviam sob regime de trabalho escravo. A maioria era de Pernambuco e trabalhava em péssimas condições de higiene. Todos dormiam no local de trabalho, sem colchões. Recebiam R$ 300 pela produção de pães, bolos e panetones. No entanto, o dono da padaria descontava do salário deles o dinheiro da passagem para Curitiba e as refeições.
Denúncias sobre trabalho escravo no Paraná podem ser feitas no telefone (41) 219.7727. O denunciante não precisa se identificar.


