Bolívia volta a viver violentos confrontos
La Paz, 10 (AE-AP) - Dezenas de estudantes entraram em choque nesta segunda-feira (10) com a polícia, apesar do forte controle militar depois de o governo ter declarado estado de sítio no sábado, para conter protestos em várias cidades da Bolívia.
Até a tarde de hoje, quatro pessoas haviam morrido e dezenas ficaram feridas em confrontos registrados em Cochabamba e no povoado de Achacachi, nas proximidades de La Paz.
A declaração do estado de sítio provocou reações de setores sindicais. A Central Trabalhadora Boliviana convocou uma greve mobilizada de 24 horas para esta quarta-feira, desafiando o estado de sítio imposto por Banzer. O sindicato nacional dos professores declarou uma greve de 24 horas a partir de sexta-feira, com manifestações nas ruas de La Paz.
A isto somou-se hoje uma greve de fome declarada no parlamento por oito líderes do oposicionista Movimento Sem Medo, do prefeito de La Paz, Juan del Granado, que exige do presidente Hugo Banzer a pacificação do país com a suspensão do estado de sítio.
O comandante-em-chefe das Forças Armadas, almirante Jorge Zabala, denunciou hoje que, à noite, desconhecidos explodiram uma bomba caseira em Oruro, ferindo dois soldados da polícia militar.
Enquanto a desordem prosseguia, o governo apressou-se em acusar o narcotráfico de patrocinar os distúrbios.
Ao meio-dia ocorreu um confronto entre universitários e polícias na capital, quando era organizado um protesto. Os policiais atiraram bombas de gás lacrimogêneo no edifício da Universidad Mayor de San Andrés. Os universitários reagiram com pedras e se armaram com paus para enfrentar os soldados.
As manifestações também prosseguiram em Cochabamba, até onde chegaram hoje aproximadamente 10.000 camponeses de diversas áreas.
Com uniforme de campanha e o rosto pintado, tropas militares bem armadas tomaram hoje o povoado de Achacachi, a 120 quilômetros de La Paz. Mas não encontraram seus moradores, que haviam se refugiados nas montanhas.
Ontem, três camponeses e um oficial do exército morreram ali em confrontos. O militar foi golpeado e esquartejado pelos camponeses. Outros sete trabalhadores rurais sofreram ferimentos a bala.
Para o porta-voz oficial do governo, Ronald MacLean, a mobilização camponesa e estudantil é financiada pela narcotráfico. "Tudo isso requer recursos... Independente e espontaneamente é impossível que os camponeses possam se mobilizar por si mesmos", disse MacLean em entrevista coletiva. Segundo ele, os traficantes querem desestabilizar o governo para evitar que o prosseguimento de sua política antidrogas.
Banzer advertiu hoje sobre a "militarização" da Bolívia, se prosseguir a convulsão social em algumas regiões pela decisão dos campeoneses de prosseguir com o bloqueio de estradas. MacLean, disse que Banzer "vê com muita preocupação grupos políticos e o narcotráfico incitando os camponeses a enfrentar o exército".
O secretário-geral da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Rurais da Bolívia, Félix Santos, ratificou hoje que seu setor não suspenderá os bloqueios, vigentes em seis dos nove departamentos bolivianos. Santos substitui Felipe Quispe, confinado pelo governo em San Joaquín, perto da fronteira com o Brasil, onde só se chega por via aérea. Os líderes rurais se declararam na clandestinidade "para fugir da perseguição dos organismos policiais e militares", segundo entrevista concedida à Rádio Panamericana.
O secretário executivo do opositor Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), Carlos Sánchez Berzaín, disse que seu partido iniciará uma "batalha legal" no congresso para forçar Banzer a suspender o estado de sítio. Ele recordou o passado ditatorial de Banzer, líder de um regime militar entre 1971 e 1978, e disse que "a máscara de democrata que usou nos últimos anos caiu".
A maioria parlamentar, formada pela coalizão governista, optou nesta segunda-feira pela suspensão por tempo indeterminado da sessão que debateria a declaração do estado de sítio.
Banzer determinou o estado de sítio depois que milhares de moradores de Cochabamba saíram às ruas para protestar por um melhor serviço de água potável e a rescisão do contrato com a empresa anglo-franco-boliviana Aguas del Tunari.
Os executivos da empresa decidiram ontem rescindir o contrato, mas apenas depois dos confrontos entre manifestantes e policiais que deixaram um estudante morto e muitos feridos.





