Boletins prevêem "avalanche" de votos para oposição
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domingo, 06 de junho de 1999
Por Pepe Escobar, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Jacarta, 07 (AE) - Os resultados preliminares começam a sair apenas amanhã (08). Mas já hoje à noite, com base em boletins de militantes do partido em diversas províncias, o tesoureiro do partido de Megawati, o PDI-P (Partido Democrático da Indonésia - da Luta), Laksamana Sukardi, previa uma "avalanche" de votos no touro enraivecido - o símbolo do PDI-P: uma média nacional de 45%, contra menos de 15% do Golkar, o partido do sistema de Suharto.
Em Jacarta, de acordo com Sukardi, o Golkar será trucidado, com menos de 5% dos votos. Sukardi já declara o governo Habibie "agonizante". Se todas essas previsões se confirmarem, Megawati está com o caminho aberto para tornar-se a próxima presidente da Indonésia.
Até Suharto votou. Com um indelével sorriso cínico, o multibilionário autocrata javanês, que jamais permitiu uma eleição livre e limpa em 32 anos de poder, hoje era apenas um entre 112 milhões de eleitores, escolhendo entre 48 partidos. A primeira eleição democrática neste arquipélago em 44 anos transcorreu na mais absoluta calma: uma imensa operação logística envolvendo mais de 320 mil urnas em todo o país, incluindo Timor Leste e a hiperproblemática Província de Aceh, no norte de Sumatra.
Foi uma votação, a princípio, limpa - encerrada às 14 horas para que os votos fossem contados logo, impedindo manipulação. E foi uma votação vigiada por 650 mil monitores locais e 350 internacionais, incluindo 100 da Fundação Jimmy Carter e 2 grupos da União Européia (UE) - que também contribuiu com mais de US$ 7 milhões para a organização do pleito.
John Gwyn Morgan, observador-chefe da UE, resumiu o que está em jogo: "Agora que todos experimentaram o néctar, ninguém vai querer voltar a beber água."
A cédula eleitoral era uma enorme página lotada de símbolos - representando os 48 partidos -, o que facilitou o trabalho de camponeses iletrados. Quem não usava uma caneta, recebia instruções simples para pressionar seu dedo, com tinta indelével
em um dos quadradinhos.
A tensão, antes da divulgação dos primeiros resultados, é de um megathriller de proporções épicas. Muitos brasileiros serão capazes de identificar-se com o fato de que a Indonésia está no limiar histórico de um enorme desafio: criar instituições, estruturas e um verdadeiro processo de governo - em suma, uma sociedade civil, capaz de canalizar a excitação e a fome de participação popular de maneira construtiva, e não por meio da violência associada ao legado repressivo da era Suharto, que ainda sobrevive em regiões como Aceh, Timor e Irian Jaya.
Esta democracia-bebê - a terceira maior do mundo depois da indiana e da americana - nasceu por meio de um sistema eleitoral extremamente complexo, sem nenhum paralelo no restante do mundo: uma mistura única de representação proporcional de cada província com alguns elementos de voto distrital. Até hoje à noite, a suposição era de que nenhum partido conseguiria mais de um terço dos votos. Isso significa que o mais votado teria apenas um terço dos dois terços do colégio eleitoral - a MPR - que deverá escolher o novo presidente, a princípio no fim de outubro.
As turbulências já são imediatas. Funcionários públicos em Jacarta denunciaram a promessa de receberem salário dobrado de junho a dezembro de 1999 caso votassem no Golkar - o riquíssimo partido do sistema de Suharto.
No fim da semana, um comitê independente em Yogyakarta já havia descoberto funcionários do Golkar distribuindo dinheiro a camponeses. Voam também panfletos desacreditando a popularíssima maré vermelha, o PDI-P de Megawati - acusado de excesso de candidatos ao Legislativo "não-muçulmanos". Cerca de 90% dos 205 milhões de indonésios seguem diferentes linhas de um Islã moderado e amaciado por crenças e culturas tradicionais. Megawati é muçulmana, e sua avó paterna era hindu. O PDI-P é secularista. Kwik Kian Gie, o guru econômico do partido, costuma ser "acusado" de cristão: na verdade, é budista.
Analistas ainda hoje estavam seriamente preocupados com a proporção de "swing voters". Esses eleitores têm um nível educacional mais baixo e mantiveram suas preferências absolutamente secretas, de acordo com a cultura javanesa. Em parte por causa desse fator, notáveis do Golkar há dias anunciam que acreditam permanecer no poder, mesmo em uma coalizão com partidos islâmicos.
Qualquer que seja o resultado das eleições, os partidos islâmicos vão exigir mais influência. Grupos de proteção dos direitos humanos vão exigir mais liberdade. Dezenas de milhões vão exigir melhor redistribuição de renda. Estudantes vão exigir Suharto na cadeia. E será necessário um esforço nacional para consertar uma economia devastada.
A situação não é de catástrofe absoluta: de acordo com o Banco Mundial, o nível de pobreza depois da crise asiática subiu para uma cifra entre 14% e 20% da população, muito longe dos apocalípticos 50% citados pela mídia global (no auge do boom da era Suharto, e antes da crise asiática, era de apenas 11%). No entanto, mais de 30 milhões de pessoas perderam o emprego por causa da crise. A classe média encolheu de 10% para apenas 5% da população.
Pelo menos US$ 80 bilhões em capital de investimento de tycoons sino-indonésios estão estacionados fora do país - e só voltam com um governo seguro e estável (os tycoons são ardentes defensores do status quo, e todos contribuíram para os cofres do Golkar). A renda per capita anual média no campo caiu para apenas US$ 400.
Investidores estão apreensivos porque a política econômica de praticamente todos os partidos é um enigma. Não se pode descontar o risco - ainda que remoto - de um novo governo altamente nacionalista, fechando-se como uma ostra. Mas Megawati não poderá mandar o FMI para o inferno, como se fosse seu pai, o líder nacionalista Sukarno.
Jusuf Wanandi, membro de uma poderosa família de industriais sino-indonésios, presidente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, tem enorme influência como intérprete da Indonésia nos corredores de Washington, na UE e no restante da ásia.
Wanandi está otimista. Para ele, o PDI-P de Megawati terá, no mínimo, 30% dos votos, o líder tradicionalista moderado Gus Dur, 20%, e o PAN, de Amien Rais, 15%. Rais prevê uma derrota maciça do Golkar.
No cenário de Wanandi, a coalizão Megawati-Gus Dur-Amien Rais teria 65% dos votos. Mas, como já observamos, os três estão unidos apenas em um tópico: são contra Suharto e seu legado. De qualquer maneira, uma vitória em torno de 65% seria um mandato indiscutível para pôr fim ao domínio do Golkar e dar início ao desmantelamento da horrenda herança da era Suharto - a despolitização total da sociedade, que incapacitou os indonésios a administrar conflitos.
O cenário de Wanandi seria uma bênção incalculável para a Indonésia. Megawati, claro, seria presidente. Uma série de pesquisas indica que o preferido para vice seria Rais ou o sultão de Yogyakarta.
Rais, no entanto, já descartou a possibilidade de ser vice de Megawati. Como os demais observadores, a preocupação de Wanandi é acima de tudo com o pós-eleição. Mas, se o resultado for inapelável, ele acredita que nem Habibie nem Golkar nem os militares serão capazes de frear o processo democrático. Habibie
depois de depositar seu voto, frisou que todos precisam respeitar o processo democrático.
Os militares vão permanecer um problema. A ABRI está sabotando abertamente o referendo de 8 de agosto em Timor Leste. Se os timorenses votarem pela independência - o resultado mais provável -, o novo governo em Jacarta e a ABRI serão obrigados a respeitar a decisão.
Mas pululam pessimistas, como um analista militar, segundo o qual "não há sinais" de que estamos entrando em uma nova era. "As velhas forças ainda acreditam nos velhos métodos, de que tudo pode ser comprado."
Para dezenas de milhões de indonésios - como se viu na semana passada nos gigantescos carnavais de rua em Jacarta e Yogyakarta -, o único resultado plausível dessas eleições é uma derrota acachapante do Golkar. Caso contrário, o vulcão volta à ativa, especialmente se a eleição presidencial não refletir a vontade popular, por causa da compra de votos e negociatas debaixo do pano operadas pelo Golkar no longo período pós-eleitoral. Entre os delegados provinciais biônicos do colégio eleitoral, a maioria deve sua carreira ao Golkar.
E, para completar, há o chamado "fator Cendana" - o espectro de Suharto. Cendana é o nome da rua hiperpoliciada em Jacarta onde vive o patriarca da Suharto Inc. Comenta-se que, em maio, em uma reunião privada com oficiais da reserva, Suharto manifestou-se a favor da reeleição de Habibie.
De acordo com fontes diplomáticas, Suharto também queria um perdão oficial de Habibie antes das eleições: conselheiros do atual presidente rejeitaram a idéia na hora, por causa do tremendo impacto negativo em sua candidatura. Apenas Megawati, que não é vingativa, teria autoridade moral para conseguir uma saída honrosa para Suharto. Já Rais quer processá-lo a qualquer custo. E milhões de indonésios querem Suharto na cadeia.


