''A bola é sua, Márcio''. Assim o presidente eleito Lula dirigiu-se ao advogado Márcio Thomaz Bastos, anunciando-o como o ministro da Justiça de seu Governo. Na solenidade, realizada no Conselho Federal da OAB, Lula disse esperar que Márcio saiba ouvir os clamores da população e promover as reformas no Judiciário que sejam capazes de torná-lo mais acessível aos menos favorecidos.
Márcio tem 67 anos de idade e 45 de janela profissional na área criminal. Conheço-o desde o final dos anos sessenta, quando ele militava no Tribunal do Júri de São Paulo. Permito-me, sem pedir vênia e nem chamá-lo de repente de Excelência, porque se trata de amigo antigo, para algumas considerações diante dessa difícil missão. É verdade que você, em suas primeiras palavras como ministro anunciado, disse que suas convicções pessoais são uma coisa e a agenda do governo Lula outra. Ótimo. Deixe para lá essa história da descriminalização de toda e qualquer substância entorpecente. Digo isso porque não existe nenhuma boa história em torno da droga e as prioridades do povo brasileiro são outras. A população quer soluções e não portas tão escancaradas para os bandidos das substâncias entorpecentes, como procuro demonstrar em meu último livro, ''Narcoditadura''. É questão de saúde pública, Márcio. Vire essa página, por favor. O povo precisa da liberação de comida, educação, saúde, habitação, cidadania. Só. Para que defender algo que só atrai desgraças pessoais, familiares e profissionais? A droga é apenas objeto. O ser humano é gente.
Lembre-se, Márcio, que ao longo dos últimos governos, todo ministro da Justiça sonhou em ser o pai de reformas na legislação ultrapassada. Na era FHC, tivemos o recorde de oito ministros da Justiça. Ninguém aguentou o tranco das incompatibilidades éticas e morais diante de posições do Executivo. Sei que você defende um controle externo do Judiciário. Aqui, cuidado com áreas de pântano e areias movediças. É verdade, como sabemos, que a força sem a lei é uma estupidez mas a lei sem a força é inútil. Veja como o crime organizado, que você já prometeu enfrentar, é senhor da situação. Aliás, a polícia da União, a Federal, estará em suas mãos a partir de janeiro. Corta essa de colocar um líder de classe para dirigi-la. Prefira uma autoridade policial de carreira, competente e sabidamente honesta.
Também sei que você prefere acreditar que a impunidade é pior do que as penas altas. Repare, Márcio, que no momento o Executivo tem legislado, o Legislativo tem policiado e o Judiciário tem executado. É preciso por ordem nessa bagunça. Também não se esqueça que somente editar leis não altera usos e costumes. E nem imagine que os escalões sob seu comando sejam formados apenas por petistas. Lula foi eleito pelos brasileiros, que esperam dele muito mais do que cartilhas partidárias. Além do que, considerando-se a autonomia dos Estados, constitucional, obviamente não há o que se falar sobre o que cada unidade da Federação deve fazer. No mais, tudo bem: Márcio é homem capaz, digno e competente. Até aqui, um excelente advogado. Tomara que seja um ótimo ministro. A bola é sua, Márcio.

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