Boca Maldita completa 50 anos em Curitiba
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terça-feira, 12 de dezembro de 2006
Evandro Fadel<br> Agência Estado 
A Avenida Luiz Xavier, criada em 1911 pelo prefeito que lhe dá o nome, coronel Luiz Antonio Xavier, no centro de Curitiba, é aclamada por curitibanos como a menor avenida do mundo. São apenas 145 metros, que ligam o Calçadão da Rua 15 de Novembro (Rua das Flores) à Praça Osório. Mas é um dos locais onde a cidadania e a liberdade de expressão mais afloram na cidade. Em 13 de dezembro de 1956, num concorrido jantar, ganhou o apelido, institucionalizado dez anos depois, pelo qual a avenida é conhecida: Boca Maldita.
Bem antes de 1972, quando se tornou calçadão exclusivo para pedestres, os cafés existentes na avenida já reuniam intelectuais, políticos, esportistas, profissionais liberais, aposentados e quem mais quisesse bater papo descontraído, discutir os rumos do País, falar de futebol e exercer o direito de criticar a tudo e a todos com liberdade irrestrita. O jantar nunca falhou nos 50 anos de história, sempre com homenagens a personalidades que se destacaram por algum benefício ao Paraná ou ao Brasil. Hoje, são cerca de 1,5 mil pessoas que ostentam o título de ''Cavalheiro da Boca Maldita''.
''É um encontro de diversas fontes de informação, diversas classes sociais, um espaço pequeno que reúne gente de todas as áreas'', diz o presidente da confraria, Ygor Siqueira, filho do lendário Anfrísio Siqueira, criador da instituição e seu presidente até 2003, quando faleceu. ''A Boca Maldita é considerada, por lei municipal, um território de opinião livre.'' Um pesquisador pode encontrar ali todos os segmentos sociais necessários para elaborar seu trabalho. Mulheres não são proibidas de frequentar o espaço, mas o jantar ainda é restrito aos homens.
A Boca Maldita viu as maiores manifestações públicas já realizadas no Estado, como o primeiro comício pelas eleições diretas para presidente, em 1984. Folcloricamente, alguns lembram que a queda do governador Haroldo Leon Perez começou a ser tramada ali, por ter ousado desafiar o poder da Boca.
Em novembro de 1971 ele foi deposto, oito meses após a indicação como governador, por entrar em colisão com lideranças de vários setores e por acusação de procedimentos ilícitos. Seu exemplo ainda serve como prevenção para eventuais autoridades que queiram contestar a voz que emana daquele pequeno espaço. Ali também floresceu parte da resistência à ditadura militar e, mesmo nesse período, as vozes não foram cerceadas no direito à livre manifestação.
Em grande parte, a opinião pública curitibana se fortalece ali. Por isso, nas últimas eleições não teve candidato a presidente ou a governador que se recusasse a pelo menos um cafezinho no local. Ponto turístico da capital paranaense, a Boca Maldita tem como moldura vários prédios tombados pelo Patrimônio Histórico. Os mais importantes estão nas duas pontas da avenida. Em uma, o Edifício Garcez, primeiro arranha-céu de Curitiba, com oito andares, construído em 1929. Na outra, o Palácio Avenida, do mesmo ano, que hoje serve como sede administrativa de um banco.


