São Paulo, 02 - O ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes era considerado pelo mercado financeiro "um acadêmico", mas com pouca experiência das malícias do setor. A avaliação de diretores de bancos é de que em um dia tenso como o da sexta-feira, em que se especulava com o dólar no mercado futuro, haveria a necessidade de uma "operação chapa branca", ou seja, utilizar as grandes instituições para acalmar mercado.
O mercado ressentiu-se também da ausência de advertências do Banco Central a instituições que autorizaram seus gerentes a espalharem para clientes sobre eventual confisco da poupança. Alguns gerentes de bancos autorizaram seus gerentes a ligar para clientes afirmando que haviam fortes boatos sobre confisco na poupança popular, argumentando que era preciso manter a tranquilidade. Isso criou pânico em clientes. Os boatos prosperaram dada a experiência com o confisco da poupança no governo Collor e as moratórias da dívida externa brasileira no passado.
Os gerentes aproveitaram o "clima" e sugeriam que os investidor resgatasse seus recursos em aplicações financeiras que ainda não havia vencido -perdendo os juros- e depositassem os recursos na conta corrente. Esses bancos tiveram ganhos com a aplicação do dinheiro deixado na conta corrente, dadas as elevadas taxas de juros.
Outros gerentes de bancos sugeriam que o dinheiro fosse enviado para o exterior. As cotações para a remessa eram "fora dos parâmetros de mercado" variando entre R$ 2,30 e R$ 2,80, ou seja, os bancos obtiveram elevados ganhos com a intermediação da remessa.
Outras instituições que recebiam recursos do exterior para o pagamento de estrangeiros residentes no Brasil também aproveitaram a turbulência para praticarem conversões com cotações de R$ 1,30, quando o mercado praticava cotações próximas a R$ 2.
BM&F - A especulação com o confisco da poupança financeira na sexta-feira passada -data de vencimento do mercado de dólar futuro- produziu perdas e ganhos de R$ 1 bilhão nos contratos de fevereiro liquidados hoje na Bolsa de Mercadorias & Futuros. O valor é estimativo, uma vez que a BM&F não produziu nenhuma nota técnica a respeito e as informações disponíveis levam em consideração apenas os contratos em aberto sem especificar o valor médio de dólar em cada posição. Há quem afirme que se levando em consideração todos os contratos futuros de dólar os negócios na sexta-feira produziram transferências de recursos entre investidores com posições "compradas" (que apostam na alta) e "vendidas" (na baixa) de R$ 7 bilhões. Esse vencimento foi considerado dos mais tensos no mercado de dólar na história da BM&F, embora a liquidação das operações na segunda-feira tenha ocorrido sem problemas.

mockup