Boas intenções nem sempre geram bons resultados
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quarta-feira, 02 de junho de 1999
Por Robert J. Samuelson 
Washington (AE-NEWSWEEK) - A maneira mais fácil de se entender porque e em que ponto estamos em Kosovo é lembrar o que Bill Clinton disse em princípios de 1991, depois que o Congresso autorizou o presidente George Bush a atacar o Iraque. Pouco antes que os aviadores e soldados norte-americanos entrassem em ação, o então governador de Arkansas ponderou: "Eu acho que votaria com a maioria, se fosse uma votação apertada. Mas concordo com os argumentos apresentados pela minoria."
Aí está o raciocínio de um homem de princípios, que sabe o que pensa e está disposto a correr enormes riscos políticos para defender convicções profundas.
Oito anos depois, o resultado é uma guerra desencadeada com uma constante barragem de retórica de altos padrões morais a respeito do mal evidente representado por Slobodan Milosevic e seus representantes - mas, apesar disso realizada com tantas limitações auto-impostas que as principais vítimas desse conflito são os próprios kosovares que nós afirmamos estar ajudando.
Esses limites derivam da relutância de Clinton que não quer colocar em risco sua posição nas pesquisas de opinião pública ou as perspectivas dos democratas nas próximas eleições.
Isso constrasta desvantajosamente com o comportamento de Bush na Guerra do Golfo Pérsico. Embora Bush deva ter tido conhecimento das pesquisas, suas ações as desafiavam.
Em novembro de 1990 - enquanto os Estados Unidos continuavam acumulando tropas - uma pesquisa Gallup pediu aos entrevistados que escolhessem entre um ataque terrestre e uma guerra aérea contra o Iraque. Por 74% contra 17%, os norte-americanos preferiram um ataque aéreo. Em janeiro de 1991, quando a guerra era iminente - uma pesquisa da CBS/New York Times perguntou se "os Estados Unidos deveriam iniciar a ação" ou esperar "para ver se o embargo comercial e outras sanções econômicas iriam funcionar". Houve então tecnicamente um empate: 47% a 46% a favor de uma espera.
A tímida busca da guerra por parte de Clinton justifica involuntariamente os argumentos de muitos críticos - principalmente do ex-secretário de Estado, Henry Kissinger, na Newsweek, e de Owen Harries, editor de National Interest, em The New York Times. Eles argumentam que Kosovo nunca envolveu interesses importantes dos Estados Unidos.
Isso certamente é verdade. Se não o fosse, a guerra seria feita sem tantas limitações. Mas a intervenção (afirmam eles) prejudicou a política externa dos Estados Unidos. Prejudicou as relações com a Rússia e a China, ameaçando a cooperação em interesses coletivos (desde a proliferação nuclear até a questão da Coréia do Norte). E o uso ineficiente da força norte-americana tornará mais difícil no futuro influenciar ou dissuadir outras nações com a ameaça da força.
Estas questões persistirão, mesmo que Milosevic seja finalmente forçado a retirar suas tropas. Mas existe outra questão: o papel da moralidade na política externa. Kosovo pode representar, na história dos Estados Unidos, a primeira guerra empreendida principalmente por razões morais.
Clinton defendeu suas políticas principalmente em termos morais, descrevendo as atrocidades sérvias e o sofrimento dos kosovares. Escrevendo em The New York Times, o presidente assim se expressou: "Os Balcãs não estão fadados a se tornarem o coração da escuridão na Europa, uma região de mesquitas bombardeadas, onde homens e meninos são baleados pelas costas, mulheres jovens são estupradas e onde todos os vestigíos da história dos indivíduos e do grupo são reescritos ou apagados."
Esta repulsa reflete os sentimentos da maioria dos norte-americanos, especialmente depois de ver regularmente imagens da TV mostrando refugiados esgotados e cadáveres de kosovares. E Clinton é correto ao afirmar que a incapacidade dos Estados Unidos de evitar todas as atrocidades não significa que Washington não possa limitar algumas delas.
Em Kosovo, o resultado é uma guerra de boas intenções. O problema é que Clinton ignora a questão mais difícil: Se você inicia uma guerra por razões morais e depois trava essa guerra de maneira fria e hipócrita, seu comportamento ainda é moral?
Clinton conseguiu assim tornar imoral uma cruzada moral, tentando proteger-se contra os danos. Inicialmente, ele enfrentou duas escolhas igualmente desagradáveis. Uma delas era cair fora, porque (como Kissinger e Harries argumentam), uma guerra em Kosovo seria mais um problema do que uma coisa pela qual valeria a pena lutar.
Isso teria submetido Clinton a ásperas críticas: ele seria acusado de cumplicidade na carnificina dos kosovares inocentes.
A outra escolha era intervir com ampla força - inclusive bombardeios rasantes e tropas terrestres - para melhorar as probabilidades de ajudar os kosovares. Neste caso, os perigos eram de que as baixas norte-americanas poderiam ter aumentado e de que o a opinião pública pudesse ficar irritada.
Por isso, em vez de adotar uma ou outra dessas escolhas, Clinton optou por uma política que minimizasse seus riscos políticos e ampliasse seus ganhos. Ele interviria (afastando o estigma de estar endossando a limpeza étnica), mas de uma maneira capaz de reduzir ao mínimo as baixas norte-americanas (limitando assim os estragos para a opinião pública). Sem dúvida
esta foi uma solução inteligente, que poderia até ser defensável, se a guerra fosse um projeto de obras públicas.
Mas aqui as consequências foram indefensáveis tanto no terreno da política externa quanto no da moral.
Como questão moral, Clinton deslocou quase todos os riscos da política americana, fazendo-os recair sobre os kosovares. A sorte deles dificilmente poderia ser pior - e talvez até poderia ser melhor - se Clinton não tivesse feito nada.
Logo que a OTAN começou a bombardear, não houve mais freios para Milosevic. Os desmentidos iniciais e repetidos de Clinton de que jamais seriam usadas tropas terrestres deram a Milosevic todos os motivos para não parar mais. Isso foi uma coisa imprudente: e, em seus efeitos, uma coisa quase criminosa.
Os defensores de Clinton dirão que ele estava (e está) limitado por problemas práticos: divisões dentro da OTAN; a opinião pública; o terreno acidentado dos Balcãs. Tudo isso é verdade.
É verdade também em todas as crises. Bush enfrentou enormes dificuldades no Golfo Pérsico: os aliados estavam relutantes (com exceção da Inglaterra); era muito delicado tentar convencer as nações árabes a participarem de uma coalizão contra Saddam: havia vastas distâncias até o Golfo. Margaret Thatcher enfrentou problemas para retomar as Ilhas Malvinas. A liderança consiste em superar problemas.
Até certo ponto, esta é a falha de Clinton. (Pergunta: Se ele fosse o presidente em 1991, será que Saddam Hussein ainda estaria no Kuwait?).
Mas, como Clinton avalia cuidadosamente a opinião pública, a falha destaca também um dilema da política externa: Como permanecer fiel aos valores norte-americanos, reconhecendo ao mesmo tempo os limites do poder norte-americano?
Os norte-americanos querem projetar as crenças dos Estados Unidos ao resto do mundo. Mas esta fé na superioridade de seus valores também os torna supeitos para os estrangeiros. Isso cria ciclos de internacionalismo e isolacionismo. Clinton quer defender tudo o que é bom e justo. Mas ele não se arriscou muito para conseguir o que é bom e justo.
Provavelmente, a maioria dos norte-americanos sente o mesmo. A lição de Kosovo é esta: boas intenções não bastam. Incautamente apresentadas, elas causam maus resultados.


