Boa parte dos argentinos indiferente com eleições Do enviado especial VLADIMIR GOITIA
Buenos Aires, 21 (AE-AP) - O calor de quase 33 graus dos ensolarados dias da primavera argentina não conseguiu, até agora, contagiar os 24,59 milhões de argentinos aptos a votar nas eleições presidenciais marcadas para este domingo.
Os argentinos, acostumados a reunirem-se nas esquinas das amplas avenidas de Buenos Aires, afirmam que o clima eleitoral está apático em vista da "maturidade democrática" obtida nos últimos dez anos e da "indiferença" em relação às propostas dos candidatos.
"Esses políticos propõem as mesmas coisas que prometeram sempre e não as cumpriram. Por que teríamos de acreditar agora se não as realizaram nos últimos anos?", indaga a grande maioria na capital argentina, onde está concentrado o maior número de eleitores.
De acordo com dados oficiais, em apenas cinco regiões eleitorais (capital federal e as províncias de Buenos Aires, Santa Fé, Córdoba e Mendoza) estão agrupados 70% dos eleitores (16,53 milhões). Apenas na Província (Estado) de Buenos Aires, serão 8,99 milhões de argentinos aptos a comparecer às urnas, sem contar ainda com 330 mil estrangeiros, que também podem votar para governador, vice- governador e deputados provinciais. Os estrangeiros têm de ter mais de 18 anos, documentos de residência na Argentina, carteira de identidade e que saibam falar, ler e escrever espanhol.
Nas eleições presidenciais de 1995, 5 milhões de argentinos não votaram. Alguns analistas políticos acreditam que este domingo esse número de "indiferentes" pode repetir-se e pelo menos 1 milhão devem votar em branco. Como o voto é obrigatório, os argentinos já pensam em entrar para o grupo dos "501". Pelo código eleitoral, se um cidadão está a mais de 500 quilômetros do seu local de votação, fica isento dessa obrigação. Por isso, o movimento ou grupo de pessoas que planejam não votar vem crescendo. Estima-se que, em sua maioria, os componentes desse grupo dos "501" sejam jovens entre 18 e 21 anos.
A nova geração da "indiferença" soma quase 1 milhão de jovens, que mostram pouco ou quase nenhum interesse pela política, da qual falam pouco e a consideram com pouco poder para modificar a realidade argentina. A maioria nasceu com o final da ditadura, cresceram com a democracia e, quando Menem assumiu o poder, em 1989, estava com 8 ou 9 anos de idade. Mas a perspectiva de ir pela primeira vez às urnas para escolher um novo presidente tem mostrado mais indiferença do que entusiasmo ou curiosidade.
Há menos de quatro décadas, jovens dessa idade estavam até dispostos a morrer para defender ou participar da democracia. Ser jovem era sinônimo de rebeldia e de participação política. Hoje, esse idealismo parece estar morto. Uma recente pesquisa realizada pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP) em Buenos Aires e na Grande Buenos Aires mostrou que 59% dos jovens não se interessam pela política. Para 47,9%, é sinônimo de corrupção e de negociações por baixo do pano. E mais, 86,9% jamais pensaram em incorporar-se a um partido político.
A maior preocupação é o desemprego e a insegurança. Com base em dados do Banco Mundial (Bird), Equipes de Investigação Social (Equis) constataram que 40% dos jovens que estão aptos a votar se encontram abaixo da linha da pobreza. Isso significa que não têm sequer 164 pesos (US$ 164), para os homens, ou 114 pesos (US$ 114), paras mulheres, para comprar uma cesta básica de alimentos, somada a eventuais gastos com transporte, moradia e vestuário. Muitos desses jovens sofrem o flagelo do desemprego, ainda segundo as Equis.
A estudo mostra ainda que 32% dos jovens que vão votar pela primeira vez estão atrás de um emprego. Pior, 44% desses jovens vivem em lugares onde não existe saneamento básico. A maioria acredita que os candidatos não estão "nem aí" com a Argentina e buscam apenas sair do anonimato. Indagados sobre o que fariam eles se fossem eleitos presidente, a maioria diz, sem duvidar, "que acabariam com as favelas e, depois, ofereceriam trabalho para todos os argentinos".
O cientista político Rosendo Fraga diz que os jovens representam hoje o setor mais cético do eleitorado. O ceticismo dessa parcela do eleitorado, de acordo com ele, tem as suas razões. O mercado de trabalho não abre as suas portas e, se o faz, os recebe em condições precárias e abusivas. Um quinto dos que estão com trabalho, por exemplo, não recebe pelo que faz ou é retribuído apenas de forma esporádica.
Nas eleições de domingo, a Argentina gastará cerca de US$ 100 milhões, o dobro dos gastos registrados em outubro de 1997. Isso significa que cada voto, caso todos os habilitados compareçam às urnas, custará aos cofres do Estado US$ 4,12.
As eleições argentinas tem outras curiosidades. O primeiro colocado para presidente, por exemplo, acabará sendo eleito com 45% dos votos já no primeiro turno, independentemente da diferença em relação ao segundo colocado. Caso o mais votado consiga entre 40% e 45% e mantenha uma diferença de 10 pontos porcentuais para o segundo colocado, também vence no primeiro turno das eleições.





