São Paulo, 19 (AE) - A seca prolongada, a chuva em excesso em algumas regiões produtoras e o efeito do câmbio nos custos de produção não deverão afetar a oferta de produtos agrícolas, nem pressionar os índices de inflação este ano. Ao contrário. Como a produção estava ameaçada pela estiagem, os preços chegaram nas alturas em dezembro. Com o restabelecimento da umidade, a melhor avaliação da safra e a aproximação da colheita, o quadro se inverteu.
A estimativa de uma safra quatro vezes maior este ano, em relação a 1999, em Irecê, na Bahia, fez o preço do feijão entrar em queda livre. A produção deverá chegar a 240 mil sacas, contra 60 mil sacas de feijão carioquinha no ano passado. Em quatro semanas, o preço caiu 41,8%, para R$ 22,00 a saca, abaixo do preço mínimo, que é de R$ 28,00.
As condições favoráveis de clima no Norte e Nordeste deverão mudar significativamente as características de mercado de milho. Aquelas regiões deverão tornar-se auto-suficientes, dispensando os mercados das regiões Sul e Centro-Sul para garantir o abastecimento local. A produção deverá chegar, numa projeção otimista, a 30 milhões de toneladas este ano, 2,5 milhões de toneladas menos que na safra 1998/99. Os dados incluem as projeções de produção da chamada safrinha, que começa a ser plantada agora e será colhida no fim do outono.
O resultado da safrinha é uma incógnita e, consequentemente, o total da safra de grão, segundo análise do pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA) da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, Nelson Batista Martin. Os preços favoráveis do milho (em torno de R$ 14,00 a saca na semana passada) deverão manter-se durante o ano. Isso poderá levar muitos agricultores a substituir o trigo, cultivado habitualmente por agricultores do Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, pelo milho safrinha.
No caso do açúcar e do álcool, a produção deverá ser mais voltada para o mercado interno. Isso porque o mercado internacional de açúcar ficará enfraquecido pela maior disposição dos países europeus em reforçar a produção local, a partir da beterraba. No mercado interno, os preços subiram. Em julho, a saca de 50 quilos de açúcar cristal estava em R$ 9,84. Na semana passada, R$ 20,00, com tendência de alta, em consequência dos baixos estoques na atual entressafra. Essa alta já não pressiona a inflação, porque o maior impacto ocorreu no início do ano e a tendência é de queda.
Ao contrário do que ocorreu no ano, as indústrias de suco de laranja deverão reforçar as exportações. O suco de laranja foi a única commodity que conseguiu sustentar preços no mercado internacional em 1999, lembrou o professor da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (Esalq), Evaristo Marzabel Neves. Como o País é o maior exportador do produto, conseguiu reter as vendas e garantir um preço melhor (US$ 1.054 a tonelada
2,5% mais que no ano anterior). Neste ano, a safra deverá ser menor, mas a comercialização deverá ocorrer de forma menos tumultuada. Está prevista safra 3% menor, segundo a indústria, e 9% menor, segundo os citricultores. Seja qual for o volume correto, não deverá haver alteração para o consumidor, uma vez que 20% da safra do ano passado não foi colhida. A receita externa de US$ 1,23 bilhão no ano passado não deverá alterar-se significativamente, acreditam o analistas.
As receitas com café e carne deverão ter resultado semelhante. A estiagem e a previsão de uma safra menor em 2000 elevaram o preço do café para cerca de R$ 230,00 a saca no fim do ano. A retração do consumo, a entrada da produção dos países da América Central e a estratégia baixista das grandes torrefadoras da Europa e dos Estados Unidos fez com que os preços recuassem. Mesmo assim, a receita com as exportações não deverá cair. Isso ocorre porque grande parte das vendas externas no ano passado foram feitas por preço reduzidos. "Este ano, o preço médio será maior", afirmou o presidente da Sociedade Rural Brasileira, Luiz Hafers, que defende uma política de retenção de estoques para fortalecer o mercado.
As exportações de carne em 1999 cresceram 21%, com crescimento da participação do Brasil no mercado europeu. A receita foi recorde, US$ 1,9 bilhão, valor que, segundo o pecuarista Pedro de Camargo Neto, presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Pecuária de Corte (Fundepec), deverá repetir-se este ano. Como nas demais atividades, o início da safra deve atrasar. Mas os preços já antecipam o início da oferta maior do produto. De R$ 43,00 a arroba em janeiro, passaram a R$ 39,00 na semana passada e há ofertas de R$ 37,00 a arroba.

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