Boa comida também faz parte do roteiro da Regata do Descobrimento
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segunda-feira, 20 de março de 2000
Por Julio Cruz Neto 
Ilhas Canárias, 21 (AE) - Para uns, percorrer a rota do descobrimento pode representar apenas uma travessia oceânica, nada mais que uma longa viagem de um mês e meio. Mas para quem se interessa pela história de como os portugueses chegaram ao Brasil, e das viagens daquela época como um todo, seguir a mesma trilha num moderno navio cria um contraste interessante. E permite fazer uma série de comparações. O tema de hoje será a alimentação.
A idéia não é que você fique com nojo e pare de ler, mas vamos começar falando do que comiam os tripulantes da esquadra de Cabral, que recebiam mensalmente 15 quilos de carne salgada, cebola, vinagre (também usado para desinfetar a imundície do porão) e azeite. Era a mesma porção para todos, soldados ou oficiais, que também tinham direito a 400 gramas de um biscoito duro e salgado, "via de regra todo podre das baratas e com bolor mui fedorento", como descrito em "História Trágico-Marítima". Só que os capitães podiam transportar galinhas e ovelhas a bordo.
Se em termos nutritivos a alimentação era pobre, água e vinho, entregues diariamente, não faltavam: 1,4 litro por dia para cada tripulante. Mas a água, armazenada em tonéis de madeira pouco apropriados, cheirava mal e causava infecções e diarréias, como informa Eduardo Bueno em "A Viagem do Descobrimento".
No Cisne Branco, embora não haja um grande requinte nos temperos, não há do que reclamar em termos de comida. Há sempre arroz e feijão com alguma mistura (peixe, frango, carne vermelha
batata frita, legumes, uma torta). Para sobremesa, laranjas, banana caramelada, frutas em calda, goiabada ou outro doce. E sopa à noite. O café-da-manhã, única refeição que deixa um pouco a desejar, é servido às 7h30. O almoço está na mesa às 12h, a janta às 18h e a ceia às 20h30, antes da sessão de vídeo, às 21h.
Quem mata a fome dos 53 tripulantes é Cosme Daud dos Santos, nascido em Corumbá (MS), que cozinha há 20 anos para a Marinha - ser cozinheiro era sua última opção, a primeira era ser cabeleireiro. Segundo ele, que trabalha das 6h às 19h sem parar, saem de suas mãos e de seus assistentes, todo dia, oito quilos de arroz, cinco de feijão e 25 de carne ou 30 de peixe - alimento que fica armazenado num paiol de gêneros secos e em dois frigoríficos.
O cardápio é aprovado semanalmente pelo imediato, o segundo oficial na hierarquia do navio, abaixo apenas do comandante. Ontem, houve frango à passarinho no almoço. E um jantar especial, servido excepcionalmente no convés (geralmente é na praça darmas), com isca de filé à francesa (com presunto, acebolado, ervilha e batata palha), farofa e arroz.
Nem sequer o balanço do navio atrapalha muito porque há um jogo americano de borracha com aderência impressionante. Só escorregam as cadeiras e os talheres. Em barcos pequenos como o trimarã Bahia, a mordomia não é tanta. Os tripulantes comem sempre comida semi-pronta e muitas vezes, apenas alimentos liofilizados (desidratados) ou sanduíches. Não é uma maravilha, mas ainda assim é um luxo se comparado com os deliciosos biscoitos e a carne de 500 anos atrás.
No final da semana, os veleiros estarão chegando a Cabo Verde, onde termina a segunda perna da regata.


