Rio, 05 (AE) - O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Andrea Calabi, disse que a instituição vai financiar empresas estrangeiras "sempre que houver necessidade de crédito para investimentos de interesse do País". Calabi deu entrevista à Agência Estado na quinta-feira, antes da demissão do ministro do Desenvolvimento, Clóvis Carvalho. Seu nome tem aparecido na lista dos possíveis sucessores do ex-ministro.
Reforçada pelo empréstimo para a Ford norte-americana instalar fábrica na Bahia, essa posição do BNDES vai ganhar fôlego e consumir boa parte do orçamento de R$ 20 bilhões com os processos em curso de reestruturação de diversos setores industriais, onde o banco entra financiando fusões e incorporações de empresas. No setor siderúrgico, por exemplo, as estrangeiras que atuam no mercado brasileiro, como a alemã Thyssen, a francesa Usinor e a belga Arbed, podem vir a adquirir empresas nacionais com financiamento do BNDES.
"O papel do banco é garantir à empresa nacional condições de crédito iguais às que a estrangeira tem no exterior
mas, se para realizar um investimento de interesse do País for necessário financiar uma estrangeira, isso será assegurado", afirma Calabi. Em geral, grandes grupos multinacionais não batem à porta do BNDES porque conseguem dinheiro mais barato no exterior, mas recentemente o banco financiou estrangeiras do setor de telecomunicações para comprar equipamentos.
Nos projetos de reestruturação industrial, tanto a Thyssen quanto a Odebrecht baiana poderão obter crédito do BNDES em condições iguais para adquirir empresas ou participações acionárias nos setores siderúrgico e petroquímico. A recomendação feita pelo presidente Fernando Henrique Cardoso a Andrea Calabi de acelerar os processos de fusão e incorporação de setores industriais não foi cumprida, um mês depois de sua posse.
Esse processo não andou porque não depende só do BNDES, mas de decisões das empresas, que não se entendem nem conduzem as negociações com o objetivo de associar-se em grandes conglomerados, acompanhando o movimento de grandes grupos industriais no exterior. Petroquímica - No setor petroquímico, por exemplo, há meses ficou definida a divisão dos pólos em quatro. O Grupo Ultra compra os ativos da Odebrecht no pólo da Bahia e passa dominar sozinha a região. Mas ambos negociam há tempos e até hoje não chegaram a um acordo sobre o preço dos ativos. No pólo gaúcho, os Grupos Ipiranga e Odebrecht associariam-se numa única empresa.
Em São Paulo, a Petroquímica União, controlada pela Unipar, Union Carbide, Odebrecht e Suzano, deverá ficar como está. O pólo do Rio de Janeiro, ainda um projeto no papel, deverá ser dividido entre Unipar e Suzano. No Rio Grande do Sul, a Ipiranga não quer nem vai associar-se à Odebrecht, alegando que o endividamento desta empresa é elevado. Hoje, o BNDES, que não comanda, mas conduz a direção da rearrumação acionária, já abre mão da sociedade, condição que vinha impondo para liberar um empréstimo, de R$ 340 milhões para a Odebrecht.
Esse é um empréstimo que foge aos padrões da reestruturação por meio de fusões ou incorporações. A Odebrecht não vai fundir-se (a Ipiranga não quer) nem comprar nenhuma empresa, mas negocia um empréstimo de R$ 340 milhões com o BNDES. Embora Calabi argumente que os financiamentos de reestruturação são distintos dos socorros financeiros do passado
conhecidos como operação hospital, o crédito à Odebrecht assemelha-se a esse tipo de operação, uma vez que o dinheiro não será aplicado em compra de empresas - pelo contrário, ela vai vender seus ativos na Bahia - nem em novas unidades industriais.
De qualquer forma, observa Calabi, a empresa baiana conseguiu recentemente um financiamento no exterior que lhe deu certo fôlego financeiro, tirando do BNDES a pressão para acelerar a liberação do empréstimo. Siderurgia - Na siderurgia, a reestruturação não anda porque a Companhia Vale do Rio Doce e o Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, demoram para vender suas inúmeras participações acionárias, que as tornam presentes em praticamente todas as siderúrgicas, ameaçando a livre concorrência. A Vale tem participação acionária na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Siderúrgica de Tubarão (CST), Usiminas e Açominas. O Previ possui ações da CSN, Usiminas, Acesita e é sócia da Belgo Mineira no arrendamento da Siderúrgica Mendes Júnior.
Calabi espera que as empresas se organizem em apenas três grandes conglomerados, com a Gerdau liderando os nacionais, que incluem Vicunha, Bradesco, Votorantin e outras menores. No emaranhado de participações societárias, a rearrumação será partilhada ainda pelas estrangeiras Nippon Steeel (japonesa, há mais tempo no Brasil), Thyssen (alemã), Usinor (francesa) e Arbed (belga). Papel e Celulose - Como na siderurgia, é a Vale do Rio Doce que emperra as negociações para reduzir o conjunto de quatro empresas a dois grandes conglomerados. A Vale tem 50% da Bahia-Sul Celulose e é sócia dos japoneses na Cenibra.
A Vale já concordou em desfazer-se de uma, mas não escolheu com quem vai ficar. A Aracruz Celulose tem como sócios os Grupos Lorentzen, Mondi (Anglo-America sul-africana), Safra e o BNDES. Há ainda a Votorantin Papel e Celulose.

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