BNDES suspende operação de troca de títulos de empresas
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sábado, 22 de maio de 1999
Por Gustavo Alves 
Rio, 22 (AE) - O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) informou hoje que não fará mais a operação de troca de títulos de empresas brasileiras lançadas no Exterior, que havia sido anunciada no fim de abril. Segundo comunicado do banco, o valor dos títulos que os investidores queriam substituir foi inferior ao montante de US$ 1 bilhão, que seria o mínimo necessário para a operação ser realizada.
Houve interesse em trocar US$ 684 milhões em bônus das empresas, de acordo com o diretor superintendente da BNDESPar, empresa de participações do BNDES, José Luís Osório. Ele atribuiu o cancelamento da operação ao fim da crise financeira internacional e à melhoria da situação econômica do Brasil. "O mercado melhorou, e o investidor preferiu ficar com papéis de boa liquidez", afirmou o diretor, para quem o cancelamento não foi uma má notícia.
A intenção do BNDES era substituir os bônus de 90 empresas brasileiras, com prazo de vencimento médio de quatro anos, por papéis que venceriam em dez anos. Os novos títulos seriam emitidos pela Sociedade de Propósito Específico (SPE) à Brazilian Liquidity Transition Company (BLTC), criada nas Ilhas Cayman para evitar o pagamento de impostos e dar maior atração ao negócio.
O valor total dos títulos "elegíveis", que poderiam ser trocados, era de US$ 21 bilhões, mas Osório afirmou que a expectativa era de alongar o prazo de no máximo US$ 2 bilhões desta dívida. "Este era o nível esperado já com a melhoria do mercado, e uma operação destas você não pode fazer com um volume muito grande", afirmou o diretor.
Saída de mercado - O prazo para os investidores manifestarem interesse no negócio havia terminado hoje. Com o cancelamento, Osório não sabe qual será o futuro da BLTC. Segundo o diretor do BNDESPar, mesmo com o fracasso da operação, foi importante mostrar que há uma "saída de mercado" que pode ser usada em uma eventual situação de dificuldade de empresas brasileiras. "Se a gente vai voltar a fazer essa operação, não sei", afirmou o diretor. "Mas espero que nunca mais, porque isso aconteceria com o País em crise", comentou.
Até a noite de ontem, de acordo com o diretor do BNDESpar, os investidores europeus eram os maiores interessados em mudar os seus títulos. O menor interesse dos americanos surpreendeu Osório, porque, na viagem que fez aos Estados Unidos
ele percebeu grande curiosidade dos investidores daquele país. "No almoço em Nova York, havia umas trinta pessoas, e pela quantidade de perguntas, dava para ver a preocupação em entrar na operação", contou o diretor do BNDESpar.
Para Osório, a crise argentina não deve afetar o País a ponto de ser necessário lançar novamente esta alternativa para ajudar empresas brasileiras. O Brasil, lembrou, não depende da economia argentina, e deve ser pouco afetado. "Basta olhar os números da balança e do Produto Interno Bruto (PIB) para ver isso", acrescentou.
Ajuda - A substituição dos títulos começou a ser arquitetada ainda em janeiro, quando a crise da desvalorização do real provocou incertezas no mercado internacional sobre a economia brasileira e a capacidade das empresas de renovar suas dívidas, além de restringir o crédito externo às companhias do País. A BLTC iria ser integrada também pela Goldman Sachs e pelo Citibank, que ficaria responsável pela gerência da empresa.
Depois que a intenção de realizar a troca de dívida foi anunciada pelo BNDES, a operação passou a ser criticada como uma forma de ajuda indevida do Estado a empresas brasileiras. A Globopar, que estava no grupo das empresas cujos papéis seriam trocados, chegou a publicar um anúncio que informava não necessitar da ajuda.
Osório disse não acreditar que alguma companhia tivesse tomado medidas para evitar que os bônus que tenha emitido fossem substituídos. "Tanta gente detém estes bônus que isso não seria possível", argumentou. Ele notou que a operação criada pelo BNDES era uma forma de mostrar ao mercado internacional que o País tinha um mecanismo capaz de fazer com que os próprios investidores ajudassem as empresas em que eles haviam aplicado dinheiro.


