Brasília, 24 (AE) - O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), José Pio Borges, confirmou hoje no Senado que está suspensa a operação de troca de títulos de empresas brasileiras por papéis que seriam emitidos pelo banco, anunciada sábado passado. Borges explicou aos senadores da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) os detalhes dessa operação. Ele acrescentou que se o banco, no futuro, considerar necessária novamente a troca de papéis, terá que reiniciar todo o processo.
Borges justificou o fato de não ter havido negociações prévias com as empresas que poderiam ter seus papéis substituídos: disse que a não-negociação foi uma exigência da Security Exchange Comission, dos Estados Unidos.
O órgão norteamericano, equivalente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) brasileira, exigia que fosse guardado sigilo sobre a operação até que estivesse aprovada. O BNDEs pretendia emitir, no mínimo, US$ 1 bilhão em papéis que seriam lançados por uma empresa constituída nas Ilhas Cayman, com o nome de Brasília Liquidity Transation Company.
Os papéis seriam trocados por títulos emitidos por empresas brasileiras para evitar que a eventual inadimplência de algumas delas ameaçasse a credibilidade do Brasil junto aos investidores externos. A operação poderia envolver 89 empresas privadas brasileiras com estoque de aproximadamente US$ 21 bilhões em títulos. Como só houve oferta de US$ 684 milhões, o BNDES desistiu do lançamento.
O presidente do BNDES explicou que o cancelamento da operação decorreu da mudança surpreendente no cenário econômico. Borges lembrou que a decisão de fazer a emissão foi tomada em novembro, quando o Brasil enfrentava perda de credibilidade, principalmente com a frustração do pacote 51 (medidas de contenção de despesas e aumento de receitas), anunciado quando da crise da Rússia.
Segundo ele, havia previsão de vencimento, em 1999, de US$ 3,6 bilhões em títulos privados que não seriam renovados. As instituições financeiras representavam 30% dos vencimentos.
O banco previa para o Brasil um cenário semelhante ao da Coréia, no qual o overshooting no câmbio duraria dois meses e, ao longo de 12 meses, a cotação do dólar cairia para uma faixa entre R$ 1,7 e R$ 1,8. Neste cenário, acreditava-se que a República poderia voltar a emitir papéis no terceiro trimestre de 1999 e que as empresas só poderiam voltar ao mercado no último trimestre do ano.
Com a operação, o banco acreditava ser possível emitir cerca de US$ 2,7 bilhões para rolar parte dos papéis que as empresas privadas tivessem que resgatar junto aos credores originais.
O presidente do BNDES disse que a previsão era de um custo dos papéis de 12% a 13%. Segundo ele, com a recuperação mais rápida do Brasil, que levou a República a emitir papéis ainda no primeiro semestre deste ano, tornou-se desnecessária a operação. "Houve o melhor dos mundos, e agora podemos pensar em emitir eurobônus comum e em novas ações conversíveis, que é o que estávamos pensando há dois anos", afirmou.
Borges disse, logo ao chegar ao Senado, que a pequena adesão dos investidores à operação de troca de títulos de empresas brasileiras por papéis que seriam emitidos pelo banco mostra que a turbulência na economia da Argentina não está assustando esses investidores.
Ele afirmou que a adesão reduzida mostra ainda que os investidores não estão preocupados em sair dos títulos com menor liquidez emitidos pelas empresas brasileiras e também que essas não estão preocupadas com seu financiamento.

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