BNDES coloca mais dinheiro público na privatização
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2000
Por Irany Tereza e Maria Fernanda Delmas 
Rio, 14 (AE) - O papel de agente financiador exercido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao longo do processo de privatização vai mudar a partir deste ano. O banco entrará com mais frequência nos leilões como candidato à compra de participações acionárias nas empresas estatais, em sociedade com companhias privadas.
A BNDESPar (empresa de participações do banco) dispõe de R$ 5 bilhões para adquitir pariticipação acionária e parte desse total será investida nas privatizações. A primeira investida deverá ocorrer no dia 17 de fevereiro, na privatização da Central Elétrica de Pernambuco (Celpe), cujo preço mínimo é de R$ 1.780.979.194,26. "O banco está disposto a associar-se a alguma empresa, por meio de uma sociedade de propósito específico (SPE), na venda da Celpe", adianta o presidente do BNDES, Andrea Calabi. E cita outros exemplos em que deve ser adotada estratégia semelhante: Furnas, Eletronorte e Chesf, além de empresas de saneamento.
Na opinião do economista-chefe do banco Bozano,Simonsen, André Lóes, tudo indica que há apetite dos investidores para os ativos do setor elétrico, se o modelo de venda estiver definido e o período da venda for favorável. Além disso, o governo não precisa mais fazer caixa com as privatizações. Em relação à Celpe, o estrategista do Bozano,Simonsen, Eduardo de la Peña, diz que poderia haver uma explicação para a entrada do banco: um possível temor dos investidores quanto ao fim do reajuste das tarifas pelo IGPM. "Mas, a princípio, não vejo problemas no interesse por esses ativos."
Calabi afasta a hipótese de "reestatização" das empresas, a partir da entrada do banco federal nos leilões. Também nega que a medida revele um temor do governo pela eventual ausência de interessados. "Isto é só um sinal adicional de confiança na qualidade da empresa que está sendo vendida", afirma. "A BNDESPar entra para valorizar o ativo e sempre o vende depois." A perspectiva do banco, segundo ele, é de arrecadação este ano de R$ 21 bilhões, com a privatização de sete distribuidoras de energia, seis geradoras, quatro companhias de água e saneamento, um banco (Banespa), uma empresa de resseguros (IRB), duas ofertas públicas de ações (Petrobrás e Vale do Rio Doce), além da venda de imóveis da União.
"É uma pauta considerável", diz Calabi. "Parte dela, quando for conveniente para o processo de privatização e parecer um bom caso para o banco, pode ser cumprida não apenas com financiamento do BNDES, mas com parte do montante do preço mínimo se dar sob a forma de participação acionária."
Essa possibilidade, segundo ele, existe para todas as empresas de grande porte da lista. "A primeira questão é tamanho, a segunda é mercado, rentabilidade." O BNDES tem patrimônio de R$ 11 bilhões, administra ativos totais de R$ 80 bilhões, dos quais R$ 60 bilhões são créditos e R$ 20 bilhões, participações em empresas, na forma de ações, debêntures e financiamentos a projetos, sob a administração da BNDESPar.
Anualmente, o banco compra e vende participações, de forma quase sempre equilibrada. Mas, no ano passado, por causa do enfraquecimento do mercado, comprou mais do que vendeu, ficando com um saldo líquido de aquisição de R$ 2 bilhões, resultado da injeção de R$ 4 bilhões em novos projetos, enquanto a transferência de participações do banco não passou de R$ 2 bilhões.
Este ano, a previsão é de que sejam compradas participações no total de R$ 5 bilhões, com venda em igual montante de ações e debêntures em poder do banco. "O BNDES entra com participações sempre com o propósito de estimular empresas, de dar-lhes condições de investimentos, mas com vistas ao crescimento e a sair", diz Calabi. "Normalmente faz isso e ganha dinheiro no processo."
O banco já participou de outras vendas como integrante de consórcio. Um dos casos mais polêmicos foi o da Tele Norte Leste, em julho de 98. A BNDES entrou no consórcio Telemar, depois de concluído o leilão, numa operação que ficou conhecida no mercado como um socorro de emergência para tornar viável o pagamento da primeira parcela do preço mínimo. O banco espera o melhor momento para vender os 25% de ações que detém na empresa, obtendo retorno financeiro, o que certamente não ocorrerá este ano, diz Calabi.


