Brasília, 06 (AE) - A direção da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) gastou boa parte das mais de cinco horas em que permaneceu na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos para explicar a controvertida carta enviada ao Banco Central (BC) no dia 14 de janeiro. Essa carta foi a justificativa apresentada até agora pelo governo para a venda de dólares a preço subsidiado aos bancos Marka e FonteCindam.
"Não foi uma carta de encomenda, mas a iniciativa foi do BC", ressaltou o presidente da BM&F, Manoel Felix Cintra Neto. Nessa correspondência, assinada pelo então superintendente geral Dorival Rodrigues Alves - falecido no início deste mês - a Bolsa "apenas" manifestava preocupação com a falta de liquidez do mercado como um todo, sem se referir aos casos do Marka e FonteCindam, segundo enfatizou o superintendente geral Edemir Pinto.
Na terça-feira, a chefe de Fiscalização do BC e interina no cargo na época da operação de socorro ao Marka e FonteCindam, Teresa Grossi, contou aos senadores que havia pedido a carta para formalizar as preocupações que um dos diretores da Bolsa, Paulo Garbatto, havia manifestado com a situação dos dois bancos. Teresa afirmou inclusive que pediu para a Bolsa retirar o nome dos dois bancos na minuta encaminhada por fax por um dos diretores da BM&F.
A versão da carta apresentada pela Bolsa irritou os senadores. Para o presidente interino da CPI, senador José Roberto Arruda (PSDB-DF), a Bolsa não só sugeriu medidas como também tem responsabilidade na decisão do BC de socorrer os bancos Marka e FonteCindam. "O que eu entendo da carta, montada ou não, é que ela confere responsabilidade à Bolsa pelas atitudes tomadas pelo BC", afirmou Arruda. O senador Roberto Freire (PPS-PE) disse que "a Bolsa teve responsabilidade na operação. Não fiquem pensando que estão livres".
Ainda de acordo com o superintendente Edemir, somente às 11h30 do dia 15, a então chefe interina da Fiscalização do BC, Teresa Grossi, pediu que ele encaminhasse uma carta "formalizando as tratativas" feitas entre as duas instituições nos dias 13 e 14, quando foi discutida e decidida a operação de socorro aos bancos Marka e FonteCindam.
Em sua exposição inicial à CPI, o presidente da BM&F afirmou que ao tomar conhecimento da carta, na tarde do dia 15 de janeiro, não deu importância ao documento. "Essas coisas são absolutamente normais dentro da Bolsa", disse. Ele defendeu o ex-superintendente geral Dorival Rodrigues Alves, que assinou a carta. Além disso, apresentou vários documentos comprovando que o ex-superintendente trabalhou na instituição entre 11 de janeiro a 30 de março.
O vice-presidente da Bolsa, Ney Castro Alves, foi questionado sobre quanto a Corretora Theca, da qual é proprietário, perderia caso o Marka fosse liquidado extrajudicialmente. Segundo ele, a corretora trabalha com risco "mas sob controle e, como já foi dito, as garantias cobriam todos os débitos do Marka". Segundo Ney, a Theca era um agente de compensação da Corretora Marka.

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