São Paulo, 01 (AE) - A mudança de estratégia na fiscalização de perueiros clandestinos terminou em tumulto hoje de manhã, na zona norte de São Paulo. Quatro perueiros ficaram feridos, 11 peruas foram apreendidas e dois carros da Guarda Civil Metropolitana, apedrejados. Desde o início do ano, a capital e outras cidades da região metropolitana vêm sofrendo com protestos e vandalismo. O estopim foi a mudança no pagamento de multas. O valor aumentou oito vezes e a cobrança passou a ocorrer na retirada dos veículos apreendidos - e não mais no ato de licenciamento. Pelo menos 11 ônibus foram destruídos pelos perueiros. Na sexta-feira, um perueiro foi morto por policiais militares quando fugia de uma blitz em Guarulhos.
A confusão de hoje começou às 10 horas, na Rua Doutor Gabriel Piza, perto do Terminal Santana, depois que guardas civis invadiram um estacionamento particular daquela rua pago pelos perueiros e confiscaram duas peruas paradas. A atitude foi considerada um "roubo" pelos perueiros. "Eles fizeram até ligação direta para tirar os nossos carros, com documento e tudo", afirmou o coordenador de linha José de Almeida Filho, de 36 anos. Segundo a São Paulo Transporte (SPTrans), no entanto, tudo não passou de um uma nova tática de fiscalização. As placas das peruas haviam sido anotadas por fiscais à paisana pouco antes da ação. Essa é a novidade. Até ontem, as apreensões ocorriam no momento da autuação.
A estratégia foi a forma encontrada para evitar fugas de perueiros, que conseguem escapar das blitze comunicando-se via rádio. Em protesto aos incidentes, os perueiros da zona norte resolveram parar o Terminal Santana no fim da tarde, no horário de pico, quando os passageiros estariam voltando para casa. "Se a população tiver de enfrentar os ônibus lotados, ela mesma vai cobrar que os perueiros possam trabalhar", apostava Osmar Figueiredo, de 42 anos, que há 5 trabalha com lotação na zona norte. Confusão - Logo após a apreensão dos carros no estacionamento, os perueiros revidaram e atiraram pedras contra um veículo da GCM. Foi o suficiente para começar o tumulto. Quatro pessoas ficaram feridas e foram atendidas no Pronto-Socorro Municipal de Santana. O motorista Wilson Roberto da Silva, de 41 anos, teve o braço fraturado; o cobrador Miguel Domingues Castilho, de 47, teve um corte profundo na perna; um trabalhador de lotação regular identificado como Flávio ficou com o braço luxado e outro perueiro, cujo nome não foi revelado, sofreu um corte na cabeça.
Encerrado o quebra-quebra, cerca de 200 perueiros aglomeraram-se nas esquinas das ruas Ezequiel Freire e Gabriel Piza. Paravam lotações e obrigavam passageiros a descer. De lá, seguiram até a Praça Orlando Silva, onde continuaram a parar lotações, para aumentar o movimento. Coordenadores das linhas conseguiram convencer os perueiros a parar a manifestação, encerrada por volta das 13 horas.
Também houve depredação de um carro da fiscalização nas esquinas das ruas Maria Cândida e Ataliba Leonel, próximo do 9.º Distrito, onde esperavam que o caso fosse registrado. Os perueiros atiraram pedras e paus, que estavam numa caçamba, na fiscalização. Granada - Os coordenadores de linha das peruas da zona norte mostraram-se preocupados. Acreditavam estar perdendo o controle da situação. "Tentamos convencer nossos perueiros de que não adianta violência, mas eles estão desesperados; alguns pensam até em comprar granada e dinamite", afirma Ricardo Martinelli, de 30 anos, coordenador da linha Corisco-Santana. "Eu respondo por mim, mas tem 23 homens na minha linha que estão com medo de não ter dinheiro para pagar suas contas". Sem crime - O delegado titular do 9.º DP, Evandro Leal, não registrou boletim de ocorrência sobre o confronto entre os perueiros e a GCM. Segundo ele, não houve crime. "É só um processo administrativo", justificou. "Os perueiros são irregulares e a guarda estava cumprindo seu papel na fiscalização". O delegado admitiu que os perueiros feridos poderão apresentar queixa por crime de lesão corporal. "Se eles prestarem queixa, aí vamos registrar o boletim de ocorrência".
Até as 13h30, porém, nenhum dos feridos havia sido recebido para registrar o boletim. Dois deles aguardavam o escrivão dentro da delegacia. Os outros dois não haviam conseguido nem passar pelo portão da entrada do prédio. Os perueiros de Santana também esperavam ser recebidos por um representante da GCM. Mas nenhum dos guardas que estavam na delegacia saiu para conversar com o grupo. (Colaborou Jobson Lemos)

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