Buenos Aires, 17 (AE) - Dois tercos do centro de Buenos Aires estão sem luz e água desde segunda-feira, quando um incêndio destruiu uma sub-estação da Edesur, no bairro de San Telmo. A falta de abastecimento está causando o colapso do setor mais vital da capital argentina. Segundo a empresa responsável pela catástrofe, o corte de energia elétrica poderá durar até este domingo.
Até o momento, sabe-se que pelo menos uma pessoa morreu por causa da falta de energia. Ironicamente, o blecaute coincidiu com um anúncio da empresa de que haveria um aumento de 4% no preço da luz. O caos energético vivido por Buenos Aires é o maior que já enfrentou nesta década. O ferino humor dos portenhos imediatamente criou piadas em torno do tango "A media luz"(Na penumbra), em alusao ao corte de energia.
Mas eram poucos que estavam fazendo piadas. O blecaute causou transtornos para mais de meio milhão de pessoas, o equivalente a 20% do total dos portenhos, que tiveram que suportar um calor de 35 graus sem ventiladores. O acidente ocorreu por causa de uma sequencia de explosões que provocaram um grande incêndio na sub-estacão da empresa chilena Edesur, responsável pelo abastecimento de energia elétrica de metade da capital argentina.
O impacto do corte de energia elétrica prejudicou bairros do centro e do macro-centro: os bairros de San Nicolás, San Telmo, Congreso, San Cristóbal, Monserrat, Balvanera, Almagro, Boedo, Constitución e Parque Patrícios. Estas partes de Buenos Aires são bairros antigos, e estão habitados principalmente por pessoas idosas, que são as que estão mais sofrendo com o blecaute.
Também foi atingido o bairro de San Nicolás, mais conhecido pelo nome de "Microcentro", onde está o centro financeiro da capital argentina, e grande parte dos ministérios. Além disso, também foi atingido o bairro de Puerto Madero, onde localizam-se os escritórios mais elegantes da cidade e os mais caros restaurantes. Na área, somente funcionavam alguns bancos e a Bolsa de Buenos Aires, que possui um gerador próprio.
O blecaute está causando prejuízos incalculáveis à economia dos portenhos: as geladeiras não funcionam, o que estraga as comidas e bebidas dos bares, restaurantes e das casas particulares. Milhares de comércios não estão podendo funcionar e quase todas os escritórios do centro estão paralisados. Osvaldo Pedri, dono de uma sorveteria na Avenida de Mayo, lamentava a perda de 150 quilos de sorvete, e perguntava "quem o indenizaria. Na farmácia do lado, várias caixas de insulina haviam sido jogadas fora.
Mas além das perdas econômicas, também ocorrem dramas pessoais. É o caso do grafólogo Manuel Kirschbaum, que mora a poucos metros da Avenida Nueve de Julio, e é um dos isolados por causa do blecaute. Aos 96 anos, não pode descer as escadas dos sete andares de seu prédio para comprar pilhas para as lanternas e velas. Também temia ficar sem água para beber. Kirschbaum, que nos anos 30 foi colunista do jornal Crítica e colega dos escritores Jorge Luis Borges e Roberto Arlt, é asmático e não tinha energia elétrica para o funcionamento de seu vaporizador.
Problemas similares estavam sendo enfrentados pela contadora Délia Abuliak, que precisava levar sua mãe, de 74 anos, ao hospital. Abuliak chamou os bombeiros, que desceram sua mãe pelos sete andares do prédio.
Na região existem diversas clínicas geriátricas, que ficaram sem água para poder dar banho em seus pacientes. Em diversos prédios, os porteiros atarefavam-se em levar água em baldes para os andares com pessoas mais necessitadas, e colocavam velas nas escadas para evitar quedas.
No edifício do Congresso, deputados e senadores estavam sem poder trabalhar, e inclusive, sem poder colocar seus carros no estacionamento do Congresso, cuja porta só pode ser aberta eletronicamente. O deputado Humberto Ruggero, líder do partido Justicialista, o partido do governo, estacionou na rua, e teve seu carro levado pela polícia por estacionar em lugar proibido.
Por causa do blecaute, 200 dos 240 semáforos do centro da cidade deixaram de funcionar. O colapso do sistema de sinalizacão causou 12 acidentes de trânsito, com três feridos graves e um morto. A polícia federal colocou mais homens no controle do tráfego, mas estão sendo insuficentes para controlar o caos do centro.
Apesar dos protestos dos clientes que pedem ser ressarcidos de seus prejuízos e de diversos deputados que estão pedindo a revisão dos contratos de privatizacões, o governo declarou que a multa a ser paga pela empresa Edesur será somente um desconto de 50% nas contas de junho e julho.

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