Blecaute gera medo na capital
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quinta-feira, 11 de março de 1999
por Gabriela Carelli 
São Paulo, 12 (AE) - Carregando o filho Marcel, de 4 anos, no colo, Maria Lourdes de Palma, de 42 anos, desembarcou ontem (11) à noite no Terminal Barra Funda, vinda de Americana, no interior. "Parece o fim do mundo", disse a sua irmã Marinelza, de 39, companheira de viagem. Assustadas com tamanha escuridão e sem saber o que se passava na cidade cuja iluminação
por vezes, ofusca, tentaram pegar um ônibus até suas casas. Todos lotados. Táxi? "Não havia um que parasse", contou. Sem opção, puseram as mochilas nas costas e foram enfrentar esse "mundo desconhecido" a pé. Nos baixos do Minhocão, temendo menores de rua que ficavam à espreita, alguns com paus e pedras nas mãos, uniram-se a outros pedestres temerosos e formaram um comboio, que seguiu pela Avenida General Olímpio da Silveira, para evitar saques, assaltos e arrastões. Exaustas e esbaforidas
agradeceram a Deus quando se viram próximas de casa. "Com essa violência, só rezando."
Perto dali, nos pontos de ônibus, o medo era o assunto mais comentado. Centenas de pessoas, aglomeradas nas portas da Estação Marechal Deodoro do Metrô, tentavam aproximar-se dos poucos policiais militares que faziam a vigilância da área e tentavam organizar o trânsito. As estudantes Cristiane Ferreira e Giane Cruz de Araújo, ambas de 22 anos, já não sabiam mais o que fazer. "Nem falar no telefone conseguimos", reclamou Cristiane, referindo-se às enormes filas de pessoas que tentavam ligar para suas casas nos orelhões. A dificuldade imposta pela falta de luz revelou-se também nos hospitais, padarias e até no mais improvável dos locais, a esquina.
O gerador da Santa Casa não funcionou desde o início do blecaute. Médicos plantonistas precisaram correr para tirar pacientes dos elevadores e salvar as vidas dos cerca de 25 pacientes da UTI. "Tivemos de pegar equipamentos mecânicos; foi uma correria", afirmou o chefe de plantão da UTI desse hospital
Marcelo Gregório. Dono da padaria Mimo, no bairro da Luz, Cristóvão Soares, chorava com medo de perder as mercadorias. "Acabei de comprar perecíveis e não tenho idéia do prejuízo se isso continuar desse jeito." E Silvana Duarte Gomes, de 30 anos
desesperava-se com outras dezenas de pessoas na esquina da Avenida Paulista com Rua Augusta. "Estou aqui há um tempão e não consigo atravessar isso aqui; os carros passam correndo e não dão chance." Os semáforos pararam de funcionar em praticamente toda a cidade e o trânsito ficou confuso, principalmente em cruzamentos entre as Avenidas Paulista e Brigadeiro Luiz Antônio, Rebouças e Brasil, Cidade Jardim e Faria Lima. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) perdeu o contato com a maior parte dos operadores durante o blecaute.
Claro que não faltaria quem transformasse o transtorno da falta de luz em diversão. Dezenas de bares, iluminados com velas, viraram porto seguro para os moradores que não conseguiam chegar em casa. Apesar da situação, muitas pessoas apelaram para o bom humor e aproveitaram o calor para tomar cerveja e colocar o papo em dia em mesinhas nas calçadas. Alguns curiosos desceram dos apartamentos e formaram grupos de conversa nas portas dos prédios. Na Rua Augusta, que ficou totalmente bloqueada por causa dos trólebus encalhados por causa da falta de energia, motoristas desistiram de tentar voltar para suas casas e saíram de seus carros para conversar e beber cerveja. Com medo de sair nas ruas com seu Palio e enfrentar o trânsito e os motoristas que faziam barbaridades por causa da falta de sinalização, o digitador Erivelton da Mata, de 20 anos, estacionou o veículo sobre a calçada, ligou o som e chamou os amigos de trabalho. "Entramos à meia-noite do trabalho, mas nos dispensaram", explicou. "Prefiro ficar aqui em vez de correr o risco de ser assaltado."


