Blecaute fez aumentar vontade de "sumir" de alguns paulistanos
Por Andréa Portella e Rogério Wassermann
São Paulo, 13 (AE) - Uma angústia, uma "vontade de sair correndo", está tomando conta de alguns paulistanos. Eles já foram assaltados ou ficaram presos no trânsito por causa de enchentes e na noite de quinta-feira enfrentaram um blecaute. Cansaram de São Paulo. Muitos falam em fazer as malas e procurar uma outra cidade, menos violenta e menos complicada. "Se eu conto para as pessoas que conheço no exterior o que nós vivemos em São Paulo, elas certamente vão achar que é gozação", diz o empresário João Carlos de Oliveira Nogueira, de 42 anos.
Morando em Higienópolis e trabalhando na região da Marginal do Pinheiros, ele conta que, só neste ano, ficou preso duas vezes na Marginal do Tietê por causa de enchentes. Na última, em 11 de fevereiro, foi assaltado enquanto estava dentro do carro. "Levaram apenas meu relógio". Quinta-feira, na hora do blecaute, estava a caminho de casa e pegou apenas alguns semáforos apagados.
Em momentos complicados como o desta semana, ele diz ter vontade de sumir. "Às vezes, penso em sair correndo", brinca. Por enquanto, porém, ele não vai deixar a cidade. "Quero ir morar em Jundiaí, onde temos uma casa", afirma. "Mas não quero prejudicar meus filhos, que não teriam colégios tão bons para estudar".
As mazelas para quem mora em São Paulo não são poucas. Nos últimos dias houve enchentes em que a cidade parou. No dia 1.º, o Túnel do Anhangabaú ficou alagado, com a água atingindo quase 5 metros de altura. Aproximadamente 150 motoristas perderam seus carros. Insegurança - Nos últimos dias, diversos casos de violência urbana na cidade tiveram destaque na mídia, aumentando ainda mais o clima de insegurança. O blecaute de quinta-feira poderia ser só mais um acontecimento isolado - que atingiu São Paulo e outros nove Estados -, mas dada a sensação quase paranóica do paulistano com a sucessão de problemas, ganhou uma dimensão fora do comum.
Numa cidade como São Paulo, com 10 milhões de habitantes
os inconvenientes trazidos por eventos como o de quinta-feira à noite podem ganhar proporções inimagináveis. "A cidade grande por si só já tem diversos problemas e, numa situação como o blecaute, esses riscos se potencializam", comenta Joca Martins, presidente do Movimento de Prevenção aos Riscos Urbanos.
"Se no dia-a-dia, principalmente à noite, as pessoas já estão expostas normalmente à violência e a acidentes, por exemplo, imagine o que acontece com aquela escuridão, com chuva, as ruas todas esburacadas, semáforos apagados e congestionamentos monstruosos", justifica Martins. "Em uma cidade do interior, por exemplo, os efeitos seriam bem menores"
diz a urbanista Regina Monteiro, do Movimento Defenda São Paulo. "Pessoas do interior geralmente moram perto do trabalho e dependem muito menos do transporte coletivo." Transportes - O transporte público de massa, como trens metropolitanos, metrô e trólebus, típicos de cidades grandes, são os que mais sofreram com o blecaute, por depender de energia elétrica para funcionar. "Certamente, o impacto da falta de luz nos transportes é maior numa cidade grande", concorda o arquiteto Ayrton Camargo e Silva, secretário-executivo da Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP).
"Esses meios de transporte, principalmente o trem, levam a uma distância maior e dificilmente há linhas de ônibus nesses mesmos trajetos", observa Silva. "A sorte é que o blecaute ocorreu num horário de baixa demanda, porque se fosse num horário de pico o desconforto psicológico seria muito mais intenso", diz.
O arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, ex-secretário municipal do Planejamento, não concorda que São Paulo tenha sofrido de maneira mais intensa as consequências do blecaute. "Os inconvenientes são os mesmos, as diferenças são apenas quantitativas", afirma. "O blecaute deixou no escuro também as cidades pequenas."
Wilheim, que também foi secretário estadual do Meio Ambiente, considera que eventos como esse expõem a vulnerabilidade da tecnologia ante possíveis acidentes de ordem técnica. "Esses acidentes podem acontecer a qualquer hora e trazem a necessidade de se preparar alternativas", observa. "As pessoas desaprenderam a fazer as coisas manualmente."
Ele observa que a visão de uma grande cidade às escuras pode assustar. "Somente as pessoas mais velhas, que viveram à época da 2.ª Guerra, lembram-se dos blecautes provocados em Santos, por exemplo, como prevenção a possíveis bombardeios", comenta.





