Londres, 03 (AE-REUTERS) - Os ataques da Otan contra objetivos estratégicos de alto nível na Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) vão continuar até que o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, aceite todos os termos do acordo de paz para Kosovo, informou hoje (03) o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, ao comentar a destruição na madrugada deste sábado dos Ministérios do Interior da Iugoslávia e da Sérvia em pleno coração de Belgrado.
Foi o primeira vez que a capital iugoslava sofreu um ataque aéreo desde a Segunda Guerra Mundial.
"Os bombardeios só serão interrompidos quando ele (Milosevic) desistir de sua política de limpeza étnica", insistiu Blair, ao prever para "dentro de dois ou três dias" uma oferta de paz por parte do presidente sérvio.
Dados da Otan divulgados neste sábado elevam para 756 mil o total de pessoas forçadas a deixar suas casas em Kosovo desde que se agravaram, há um ano, os conflitos étnicos na região, sendo que 290.000 somente nos últimos 10 dias. A aliança calcula que em 10 ou 20 dias os sérvios poderão expulsar todos os albaneses étnicos do território.
Segundo o primeiro-ministro britânico, a Otan vai demonstrar sua determinação e rechaçar toda proposta que não satisfaça plenamente suas exigências - o fim da repressão em Kosovo, a retirada total dali das forças de segurança e da polícia, o estabelecimento de condições concretas para o regresso dos refugiados albaneses étnicos a suas casas e a retomada das negociações para aplicação do acordo de paz proposto em Rambouillet (França) pelo Grupo de Contato (criado por EUA, Rússia, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália, para evitar a desestabilização das repúblicas balcânicas).
Em Bruxelas, o comando da Otan advertiu Belgrado que vai expandir suas operações de bombardeio nos próximos dias. "Nenhum lugar na Iugoslávia será imune aos ataques", destacou o porta-voz Jamie Shea.
Em Washington, o porta-voz do Pentágono, Kenneth Bacon, acrescentou: "São nossos alvos todos os edifícios usados pela Iugoslávia para comandar a campanha de limpeza étnica em Kosovo."
Mas a Rússia, que se opõe à ação militar da Otan, criticou duramente o que classificou que ataque "bárbaro" contra Belgrado, acusando a Otan de estar promovendo uma "guerra de extermínio".
O navio de reconhecimento russo Liman, enviado para o Mar Adriático para "colher informações" sobre o conflito nos Bálcãs, atravessou neste sábado o Estreito de Bósforo, seguido de perto por um barco de patrulha da Turquia, que ameaçava bloquear a passagem da flotilha da Rússia pelo estreito.
Em Belgrado, os sérvios acordaram sábado profundamente chocados e revoltados com o bombardeio do coração de sua capital. Milhares saíram às ruas para protestar e manifestar a disposição de servir de escudos humanos para defender a cidade dos ataques.
"Clinton e sua Otan neonazista acabam de cometer um ato criminoso e monstruoso", reagiu o ministro do Interior sérvio, Vlajko Stojilkovic, cuja polícia especial tinha seu escritório central no edifício bombardeado. Segundo o chefe da defesa civil, Dragan Covic, ninguém ficou ferido. Todos os funcionários haviam sido retirados dos edifícios, que figuravam oficialmente como alvos da Otan desde a semana passada.
A poucos metros dos escombros dos prédios ficam as sedes das embaixadas de vários países e uma maternidade. A televisão estatal sérvia mostrou cenas de mães e bebês (70 nasceram pouco antes e durante o ataque) sendo levados a abrigos subterrâneos.
A televisão sérvia não exibiu as cenas de desespero em Kosovo, onde centenas de refugiados albaneses étnicos - mulheres e crianças - estão morrendo de frio e fome nas fronteiras da Macedônia, Albânia e Montenegro.
O governo macedônio informou não ter mais condições de acolher os kosovares expulsos pelos sérvios. Pelo menos 30 mil pessoas amontoam-se diante dos postos fronteiriços macedônios.
A Cruz Vermelha Internacional não consegue suprir as necessidades mínimas dos refugiados e teme a eclosão de uma epídemia.
Diante da grave situação, o governo alemão decidiu abria as portas do país para as vítimas da campnaha sérvia de limpeza étnica. "Esperamos que os demais governos europeus sigam o exemplo", disse o chanceler Gerhard Schroeder.
Autoridades da Otan em Bruxelas afirmaram que forças sérvias forçaram a fuga de 290.000 pessoas de Kosovo nos últimos 10 dias, e que poderiam limpar a província de todos os albaneses étnicos em 10 a 20 dias.
Outro assunto que preocupa a Otan e, principalmente, os EUA é a situação dos três soldados americanos, capturados pelos sérvios. O chanceler iugoslavo, Zivadin Janovic, classificou os três de "prisioneiros de guerra", dando claramente a entender que Belgrado respeitará, no caso, os termos da Convenção de Genebra.

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