O bispo de Caxias (RJ), dom Mauro Morelli, criticou ontem, na abertura da 37ª Assembléia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Indaiatuba, interior de São Paulo, o método adotado para as eleições internas da instituição, que ocorrerão durante o evento. ‘‘A definição prévia de duas chapas demonstra uma disputa pelo poder’’, afirmou. O religioso ameaça pregar o voto em branco, caso o sistema de escolha não seja alterado para as próximas eleições.
Pela primeira vez desde 1952, quando a CNBB foi criada, duas chapas interessadas em comandar a instituição pelos próximos quatro anos foram apresentadas de maneira aberta. Uma delas é encabeçada pelo atual presidente, dom Jayme Chemello, de Pelotas (RS), e a outra pelo arcebispo de São Paulo, dom Claudio Hummes. O nome do bispo de Mariana (MG), dom Luciano Mendes de Almeida, que já ocupou a presidência por duas vezes, também aparece nos bastidores, mas ninguém confirma abertamente.
‘‘Esse sistema é como uma máquina, que nos obriga a votar segundo a decisão de dois grupos’’, disse Dom Mauro. ‘‘Isso é uma violência’’, completou o bispo, declarando que não vai votar em nenhuma das duas chapas prontas.
Segundo o religioso, as listas divulgadas estão ‘‘mal feitas’’, porque ignoram bispos de várias regiões do País. Ele também afirmou ser contra a reeleição na CNBB. Para dom Mauro, antes de anunciar candidatos, a CNBB deveria analisar a conjuntura nacional e definir suas diretrizes pastorais. ‘‘Os nomes seriam indicados em plenário, numa segunda etapa’’, afirmou. Só depois desse processo é que ocorreria a votação para confirmar os indicados. O religioso disse que deixou clara sua posição numa carta enviada ao episcopado na época da Páscoa. ‘‘Recebi muitas manifestações de apoio’’.
O presidente da CNBB tentou amenizar a polêmica dizendo que não existem chapas e sim indicações de nomes. ‘‘Durante a assembléia poderão surgir outras indicações’’, afirmou dom Jayme Chemello. ‘‘O bispo de Caxias tem o direito de reclamar’’, ponderou o vice-presidente da entidade, dom Marcelo Pinto Cavalheira. Ele garantiu, porém, que os bispos não são obrigados a votar em bloco. ‘‘Vota-se em nomes e não em grupos’’ disse.
Hoje, os 280 bispos que participam da 37ª Assembléia Anual da CNBB se reunirão em plenário para fazer uma análise da conjuntura política, social e econômica do País. Temas como o desemprego, corrupção e violência estarão entre os destaques. ‘‘Vamos analisar a situação do povo, que a nosso ver é precária e dolorosa’’, disse o vice-presidente da CNBB. Os religiosos também pretendem discutir a CPI do Judiciário e as denúncias de que banqueiros foram favorecidos com informações do Banco Central antes da desvalorização do Real frente ao dólar.
‘‘Se alguém teve informações privilegiadas terá de ser punido porque isso é um crime terrível’’, afirmou o presidente da CNBB. Para o cardeal arcebispo, o governo deve dar o exemplo tomando medidas para evitar novos favorecimentos. ‘‘Se alguém rouba uma galinha, vai preso; mas muitos roubam os cofres públicos, e não acontece nada’’, disse.
O movimento de renovação carismática também deverá fazer parte das discussões do episcopado nacional. Segundo o vice-presidente da CNBB, o trabalho do padre Marcelo Rossi deverá concentrar boa parte dos debates. ‘‘Ele (padre Marcelo) é muito aceito pelo público, mas não devemos reduzir a evangelização a estas apresentações’’, afirmou.
Para ele, as constantes apresentações do padre Marcelo em programas de televisão precisam ser melhor analisadas. ‘‘Nem todos os programas são recomendados’’, afirmou o religioso, apesar de garantir que a Igreja não tem preconceitos em relação aos meios de comunicação. ‘‘Precisamos apenas evitar ambiguidades’’, explicou.

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