O arcebispo de Belém (PA), d. Vicente Joaquim Zico, afirmou ontem que a pressão de lobbies impede a Justiça de levar a julgamento os responsáveis pelas mortes ocorridas em consequência da disputa pela posse de terras no País. Como principal exemplo, ele citou o caso de Eldorado dos Carajás, no sul Pará, onde 19 sem-terra morreram num confronto com a Polícia Militar há três anos. Os 154 policiais acusados do massacre ainda não foram julgados. ‘‘Duvido que esse julgamento aconteça’’, afirmou o religioso, um dos participantes da 37ª assembléia geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que termina hoje, no mosteiro de Vila Kotska, em Itaici, na periferia de Indaiatuba (SP).
‘‘Está havendo um lobby muito forte para que o julgamento seja adiado’’, disse o bispo, que vem acompanhando todas as etapas do processo judicial.
D. Zico disse que está havendo ‘‘muita interferência’’ para evitar que os acusados sejam levados à juri. Outro fator que, segundo o bispo de Belém dificulta a realização do julgamento, é um ‘‘jogo de empurra’’ entre os governos federal e estadual. Para ele, nem o presidente Fernando Henrique Cardoso tampouco o governador Almir Gabriel, demonstram interesse em punir os culpados.
O bispo de Belém disse estar descrente com a Justiça. Para ele, o episódio de Eldorado dos Carajás acabará caindo no esquecimento. ‘‘O tempo vai passando, as coisas são amenizadas, e nos restará apenas relembrar, todos os anos, as mortes ocorridas no massacre’’, afirmou. Por essa razão, ele diz apoiar a CPI do Judiciário e reclama maior empenho das autoridades governamentais.
MST Para o religioso, a tensão no campo é resultado de uma ‘‘política agrária tímida’’ adotada pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Embora diga que não concorde com ‘‘métodos violentos’’ na disputa de terras, o bispo de Belém apoia o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
Questionado sobre as ocupações promovidas pelo MST, D. Zico foi cauteloso. ‘‘Apoio todo movimento que proclame a Justiça e a igualdade de direitos, mas certas ações, em vez de contribuir, acabam gerando reações piores’’, disse. Para o arcebispo de Belém, o movimento dos sem-terra deveria ser ‘‘mais sereno’’.
Um comunicado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), apresentado aos bispos que participam da assembléia da CNBB em Itaici, afirma que ‘‘a impunidade tem sido um dos estímulos à continuação da violência no campo’’. O texto, que não é um documento oficial da Igreja mas serve para reflexão do episcopado, informa que dos 1.158 assassinatos registrados no campo desde 1986, apenas 86 executores foram levados a julgamento. Só 13 mandantes foram julgados e desdes, apenas dois foram condenados. -
De acordo com a CPT, durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso houve 166 assassinatos de lavradores. ‘‘Até agora, nenhum mandante foi punido’’, diz o comunicado, intitulado ‘‘Violência no Campo -O Clamor do Povo da Terra’’. Só no Estado do Pará foram mortas 447 pessoas ligadas as disputas por terras. Na avaliação da comissão, a Justiça está sendo ‘‘rigorosa e implacável’’ apenas contra os trabalhadores rurais. ‘‘O Judiciário está precisando mesmo de uma CPI’’, diz o documento.
O texto critica a atual política agrária, dizendo que ‘‘não haverá, de agora em diante, a reforma agrária proposta pela Constituição’’. O comunicado do CPT destaca para os bispos que as superintendências do Incra serão transformadas em simples delegacia; o orçamento para a questão da terra sofrerá um corte de 72%; e as desapropriações propostas pela Constituição darão lugar a compra da terra através do Banco da Terra.

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