Indaiatuba, SP, 14 (AE) - O bispo de Caxias (RJ), dom Mauro Morelli, criticou hoje, na abertura da 37ª Assembléia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Indaiatuba, interior de São Paulo, o método adotado para as eleições internas da instituição, que ocorrerão durante o evento. "A definição prévia de duas chapas demonstra uma disputa pelo poder", afirmou. O religioso ameaça pregar o voto em branco, caso o sistema de escolha não seja alterado para as próximas eleições.
Pela primeira vez desde 1952, quando a CNBB foi criada, duas chapas interessadas em comandar a instituição pelos próximos quatro anos foram apresentadas de maneira aberta. Uma delas é encabeçada pelo atual presidente, dom Jayme Chemello, de Pelotas (RS), e a outra pelo arcebispo de São Paulo, dom Claudio Hummes. O nome do bispo de Mariana (MG), dom Luciano Mendes de Almeida, que já ocupou a presidência por duas vezes, também aparece nos bastidores, mas ninguém confirma abertamente. "Esse sistema é como uma máquina, que nos obriga a votar segundo a decisão de dois grupos", disse Dom Mauro. "Isso é uma violência", completou o bispo, declarando que não vai votar em nenhuma das duas chapas prontas.
Segundo o religioso, as listas divulgadas estão "mal feitas", porque ignoram bispos de várias regiões do País. Ele também afirmou ser contra a reeleição na CNBB. Para dom Mauro, antes de anunciar candidatos, a CNBB deveria analisar a conjuntura nacional e definir suas diretrizes pastorais. "Os nomes seriam indicados em plenário, numa segunda etapa", afirmou. Só depois desse processo é que ocorreria a votação para confirmar os indicados. O religioso disse que deixou clara sua posição numa carta enviada ao episcopado na época da Páscoa. "Recebi muitas manifestações de apoio". Polêmica - O presidente da CNBB tentou amenizar a polêmica dizendo que não existem chapas e sim indicações de nomes. "Durante a assembléia poderão surgir outras indicações", afirmou dom Jayme Chemello. "O bispo de Caxias tem o direito de reclamar", ponderou o vice-presidente da entidade, dom Marcelo Pinto Cavalheira. Ele garantiu, porém, que os bispos não são obrigados a votar em bloco. "Vota-se em nomes e não em grupos"
disse. Papa - O presidente da CNBB anunciou hoje a visita do papa João Paulo II ao Brasil em 2001. Segundo ele, o chefe da igreja católica deverá realizar uma missa solene no dia 26 de abril, em Santa Cruz Cabrália, na Bahia, para encerrar as comemorações dos 500 anos de evangelização no País. O programa está sendo elaborado pelo Vaticano e esperamos que dê tudo certo", disse.
O convite para que João Paulo II viesse participar das comemorações no Brasil foi apresentado em fevereiro pelo episcopado nacional. A CNBB desejava trazer o papa para o início das celebrações, em abril de 2000, mas os assessores do Vaticano descartaram a idéia. "Durante todo o ano que vem, o papa não deverá sair de Roma, porque são esperados muitos peregrinos", explicou o vice-presidente da CNBB, dom Marcelo Pinto Cavalheira.
De acordo com ele, no ano 2000 João Paulo II deverá fazer poucas viagens. "Ele só deverá sair de Roma para ir a Terra Santa, passando por Jerusalém e Belém", informou o bispo. Segundo ele, o papa ficou entusiasmado em participar das celebrações dos 500 anos de evangelização no Brasil. Em março, ele abençoou, em Roma, 16 réplicas da cruz usada na celebração da Primeira Missa. As cruzes serão distribuídas pelas 16 regiões eclesiásticas do Brasil, a fim de percorrerem todas as dioceses. Perdão - Durante as celebrações do ano que vem o episcopado brasileiro também pretende fazer um pedido simbólico de perdão aos negros e índios que foram explorados durante o período de colonização. "A evangelização no Brasil foi feita junto com os poderes da época", admite o presidente da CNBB. "Havia padres santos, como Anchieta, mas também aqueles que vinham tirar nossas riquezas", afirmou. Conjuntura- Amanhã (15), os 280 bispos que participam da 37ª Assembléia Anual da CNBB se reunirão em plenário para fazer uma análise da conjuntura política, social e econômica do País. Temas como o desemprego, corrupção e violência estarão entre os destaques. "Vamos analisar a situação do povo, que a nosso ver é precária e dolorosa", disse o vice-presidente da CNBB. Os religiosos também pretendem discutir a CPI do Judiciário e as denúncias de que banqueiros foram favorecidos com informações do Banco Central antes da desvalorização do Real frente ao dolar.
"Se alguém teve informações privilegiadas terá de ser punido porque isso é um crime terrível", afirmou o presidente da CNBB. Para o cardeal arcebispo, o governo deve dar o exemplo tomando medidas para evitar novos favorecimentos. "Se alguém rouba uma galinha, vai preso; mas muitos roubam os cofres públicos, e não acontece nada", disse.
O movimento de renovação carismática também deverá fazer parte das discussões do episcopado nacional. Segundo o vice-presidente da CNBB, o trabalho do padre Marcelo Rossi deverá concentrar boa parte dos debates. "Ele (padre Marcelo) é muito aceito pelo público, mas não devemos reduzir a evangelização a estas apresentações", afirmou. Para ele, as constantes apresentações do padre Marcelo em programas de televisão precisam ser melhor analisadas. "Nem todos os programas são recomendados", afirmou o religioso, apesar de garantir que a Igreja não tem preconceitos em relação aos meios de comunicação. "Precisamos apenas evitar ambiguidades", explicou.

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