Washington, 29 (AE) - Em janeiro do ano passado, Doris Haddock partiu de Los Angeles determinada a atravessar os Estados Unidos a pé e a fazer de sua peregrinação um protesto contra a corrupção das campanhas políticas americanas pelo dinheiro das grandes empresas, dos lobbies e dos sindicatos.
O extraordinário do projeto não era tanto a causa que Doris abraçou, a mesma que, vários meses mais tarde, o senador John McCain, de Arizona, usaria como trampolin de sua candidatura à Casa Branca, que pôs de ponta cabeça as eleições primárias no Partido Republicano.
Conhecida como "Granny D", ou "Vovó D", Doris tem 91 anos. Hoje (29), de bandeira americana na mão e usando o terceiro chapéu de palha e o quarto par de tênis da viagem, ela completou a caminhada de mais de 5.100 quilômetros com um ato diante do Congresso americano. "Hoje, apenas 49% dos americanos votam e a razão é que eles acham que os políticos são todos uns escroques", disse ela, diante de um grupo de cerca de mil ativistas, entre eles alguns de seus doze bisnestos, que a acompanharam nos quilômetros finais. "Mas eles não são escroques, eles apenas são eleitos num sistema de governo corrupto".
Doris tem uma longa história de militância em favor de causas sociais em seu estado, New Hampshire. Ela é uma eleitora independente e não tem predileção por nenhum dos quatro atuais pretendentes à Casa Branca. Mas disse que as vitórias de McCain sobre o governador do Texas, George W.Bush, em New Hampshire e em Michigan, são sinais de uma "revolução" e expressam o desejo de mudança e de retomada do controle do governo pelos cidadãos que disse ter detectado nas conversas e encontros que teve durante sua longa caminhada costa a costa, por dez estados do país.
"Há um sentimento de que a democracia está ameaçada pelo dinheiro que as grandes corporações, os sindicatos e os homens do dinheiro dão aos candidatos", disse ela. "Nós estamos deixando de ser um país que tem um governo do povo, pelo povo e para o povo para ser uma oligarquia ou algo parecido".
Doris apóia um projeto de lei de McCain e o senador democrata Russ Feingold, de Wisconsin, que pretende banir contribuições de grandes somas para os partidos políticos, fora do limite de US$ 1 mil por ano por indivíduo para os candidatos. Mas disse que sua militância no assunto começou há muitos anos e que considera a proposta dos dois senadores muito tímida.
Ela sofre de atrite, usa aparelho nos dois ouvidos e contou que nos momentos mais difíceis da peregrinação, que fez acompanhada por uma pequena equipe de apoio, persistiu dedicando cada milha a seus amigos, vivos e mortos. Doris disse que é otimista em relação ao futuro dos EUA. "Sou uma mulher pobre, vivo da minha aposentadoria, tenho muitos netos e bisnetos e nada para deixar para eles", contou. "A causas dessa caminhada é meu legado a eles, pois quero que eles cresçam numa democracia".