Birra pede limites, alertam especialistas
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sábado, 03 de agosto de 2002
Mônica Kaseker<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O moleque se joga no chão, sapateia e grita porque a mãe disse não. Quem já não viu ou ouviu falar de uma cena como essa? No supermercado, na rua, no shopping ou em casa, qualquer lugar é um bom palco para o espetáculo da birra.
Embora todas as crianças tenham crises de pirraça de vez em quando, especialmente entre os dois e quatro anos, algumas estão mais propensas a isso. O livro ''O que esperar dos primeiros anos'', das pediatras americanas Arlene Eisenberg, Heidi Murkoff e Sandee Hathaway, diz que 14% das crianças de um ano, 20% das que têm dois ou três anos, e 11% das de quatro anos têm um ataque de birra duas vezes ou mais por dia. Nesses casos, em que a frequência das crises é superior à média, alguns fatores podem prolongar problemas de comportamento até a adolescência.
O psicoterapeuta familiar Mário Negrão diz que a birra, entre os dois e quatro anos, tem basicamente duas explicações: a auto-afirmação e a passagem do princípio do prazer para o da realidade. Nessa idade, as crianças tendem a dizer não, para confirmar seu ego. ''É a maneira mais primitiva para dizer que ela existe'', explica.
O bebê está acostumado a ter atendidas suas necessidades básicas de forma imediata e quando vai crescendo precisa se adaptar à realidade. ''Quando a criança quer comer, está acostumada a ser atendida imediatamente. Se por um motivo ou outro tem que esperar, pode ter uma crise de birra. Mas cabe ao adulto ensinar a ela os novos parâmetros da realidade'', diz.
A birra pode ser também, segundo Negrão, um reflexo do clima na casa. ''Criança só aprende com os pais. Então é preciso pensar se os adultos também não têm esse comportamento'', comenta. Disciplina demais ou de menos e até conflitos de personalidade podem causar as crises. Quando o filho é tímido e recatado e o pai quer impor um comportamento diferente, a criança tende a resistir.
Mas como prevenir os ataques de pirraça? O psicoterapeuta diz que cabe aos pais ajudar a firmar a identidade de seu filho, não por sua personalidade, mas pelo que ele pode produzir. ''Nesta fase, a criança precisa de conquistas. Conseguir montar um quebra-cabeças sozinho, tirar as rodinhas da bicicleta, coisas assim'', explica. É importante chamar a criança pelo nome, evitando apelidos, e valorizá-la pela sua performance. O limite, no entanto, é o que organiza a personalidade, segundo Negrão. E como agir durante uma crise de birra? O psicoterapeuta repete uma velha receita: um tapinha e castigo.
A psicóloga Bernadete Monteiro enfatiza que o importante é não ceder. ''É um teste de limites. Se os pais cedem, eles vão exigindo cada vez mais. Se isso se prolonga até a adolescência, os pais perdem totalmente o controle'', diz. Segundo ela, isso está acontecendo muito atualmente. A psicóloga explica que é importante esperar a criança se acalmar e explicar por que a mãe não permitiu que fosse feita sua vontade.


