Washington, 21 (AE) - A prescrição da Internet como cura para o desemprego, que o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, apresentou hoje em Florença, é um exemplo das generalidades que costumam suscitar a discussão sobre a terceira via, a busca de um caminho intermediário entre as virtudes da economia de mercado e o imperativo das garantias sociais na era da globalização. Entre a teoria e a prática, as tentativas de traduzir o conceito da terceira via em propostas concretas em benefício de países em desenvolvimento comprometidos com reformas liberalizantes de suas economias têm encontrado resistência por parte dos países industrializados.
É o caso dos "empréstimos de terceira via", um novo instrumento de crédito que está há três meses em discussão no Banco Mundial (Bird) e começará a ser testado na Tailândia. Até agora, o Bird teve dois tipos de financiamentos: os de investimentos, mais voltados para projetos de infra-estrutura, e os de ajuste estrutural, que visam apoiar reformas de setores da economia e, frequentemente, requerem acordo entre o país e o Fundo Monetário Internacional. De acordo com documento submetido à diretoria do Bird, houve nos últimos anos uma mudança no conteúdo dos dois tipos de crédito.
Os empréstimos de investimento estão cada vez mais voltados para programas de desenvolvimento comunitário e de gestão das operações do setor público na área social, enquanto os empréstimos de ajuste concentram-se cada vez mais em reformas dos setores sociais e financeiros e da administração pública. "A mudança do paradigma da assistência ao desenvolvimento na direção de um maior reconhecimento da importância da qualidade das políticas e das instituições (aponta) para a necessidade de uma terceira via, ou seja, instrumentos que combinem elementos dos empréstimos de ajuste e dos empréstimos de investimento e que possam sustentar reformas de políticas e de instituições de uma maneira sistemática", sustenta o documento. Obviamente, as premissas por trás da proposta desse tipo de empréstimo são a estabilidade e o crescimento.
Na prática, essa nova modalidade de financiamento, que tem o suporte da alta administração do Bird e já foi batizada de "crédito programático", possibilitaria injeções de dinheiro nos orçamentos públicos dos países claramente comprometidos com a reforma de suas economias para os propósitos já estabelecidos por seus governos e, portanto, com menos condicionantes. "Por essa razão, há uma grande resistência por parte dos Estados Unidos e da Europa, como da própria burocracia do banco", disse um diretor do Bird. Para ele, "os governos dos países industrializados, que controlam o banco, não querem abrir mão do poder de fiscalização que a atual estrutura dos empréstimos lhes dá sobre os países tomadores, e a burocracia tem medo porque esse financiamento de terceira via requer menos funcionários, já que confiaria mais na capacidade dos próprios países para decidir o destino e o uso dos recursos."
Essas dificuldades não diminuem o significado político da decisão dos líderes dos países industrializados de incluir Fernando Henrique Cardoso na discussão de Florença. "A presença do Brasil na mesa é um reconhecimento não apenas da posição internacional de importância do País, mas também da estatura intelectual do presidente Cardoso e da contribuição que ele pode dar para a discussão", disse Arturo Valenzuela, o principal assessor de Clinton para América Latina no Conselho de Segurança Nacional.

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