Bird adverte contra celebrações prematuras Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 26 (AE) - Um dia depois de o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) ter afirmado que a crise financeira global "parece ter terminado", o Banco Mundial (BIRD) advertiu nesta segunda-feira (26) contra celebrações prematuras chamando atenção para o impacto devastador que ela já teve e continuará a ter sobre a renda e as expectativas de progresso social no mundo em desenvolvimento.
De acordo com o estudo, o terceiro da série anual sobre os "Indicadores do Desenvolvimento Mundial", a promessa de aumento do padrão de vida embutida da taxa de expansão média de 5,3% que os países em desenvolvimento registraram entre 1991 e 1997 pode ter sido comprometida pela crise.
"Um ano atrás nós previmos, confiantes, que os objetivos internacionais do desenvolvimento de reduzir a pobreza pela metade, cortar a mortalidade infantil em dois terços e tornar universal a educação primária, mas agora esses objetivos estão em risco e precisamos tirar lições da experiência recente para reformular nossas estratégias para o futuro", disse o presidente do BIRD, James Wolfensohn.
O relatório do BIRD - uma abrangente coleção de fatos, números e análises sobre o desenvolvimento em 148 países - afirma que depois de uma geração de declínio da pobreza, aumento da esperança de vida e melhoras nos indicadores de saúde de milhões nos países mais pobres, "os esforços de aprimoramento em áreas-chave do desenvolvimento humano estão hoje em perigo de empacar na soleira no novo milênio".
Todas as regiões perderam terreno na busca de seus objetivos de redução da pobreza. De acordo com uma projeção do BIRD não incluída no relatório, no Brasil, a crise reagregou ao contingente dos pobres cerca de um terço dos 10 milhões de pessoas que haviam melhorado de renda durante os quatro anos de establidade trazida pelo real.
Do Brasil à Tailândia, passando pelo Bangladesh, Malásia e China, a desigualdade de renda aumentou na década passada. Em 34 países em desenvolvimento - incluindo Jordânia, Malásia, Rússia, Peru, Brasil, áfrica do Sul, Ucrânia, Venezuela e Zambia -, os 20% mais ricos da população recebem hoje mais de metade da renda nacional, enquanto os 20% mais pobres ficam com menos de 5% da renda.
Na ásia, única região onde a expansão da economia no período de 1990 a 1997 vinha sustentando o objetivo de redução do número de pobres pela metade até 2015, as previsões pós-crise sugerem que apenas a China e a parte sul do continente podem hoje alimentar essa esperança.
Nenhuma região regrediu tanto quanto os países da Europa do Leste e da antiga União Soviética, em função não apenas dos efeitos da crise financeira mas também das dificuldades da transição de suas antigas economias de regimes de comando para regimes de mercado.
Em 1987, havia apenas 14 milhões de pessoas com renda média de US$ 4 por dia nas antigas repúblicas soviéticas. Em meados desta década esse número havia se multiplicado mais de dez vezes, para 147 milhões, ou uma pessoas em cada três. Usando o mesmo critério, o número de pessoas que vive na pobreza na Rússia saltou de dois milhões em 1987 para 66 milhões em 1995.
Na áfrica ao sul do Saara, o flagelo da aids eliminou os progressos de esperança de vida que vinham sendo obtidos, o número de crianças em idade escolar continuou a crescer mais do que o das matrículas no curso primário e a queda dos rescursos de assistência econômica aos níveis mais baixos em 50 anos dificulta quaisquer planos para tentar reverter essas tendências.
Refletindo um intenso debate que o Banco Mundial travou com o FMI no auge da crise financeira, o relatório retoma a discussão sobre os efeitos adversos das reformas macroeconômicas sobre a pobreza e a desigualdade.
Aos críticos das reformas, o BIRD lembra que "se os déficits fiscais tivessem sido ainda maiores, o efeito de longo prazo sobre o crescimento teria sido ainda mais severo, com um impacto ainda maior para os pobres".
O banco lembra que foram as reformas que ajudaram a América Latina a vencer a crise dos anos 80. "Mas os formuladores de política deveriam ter evitado cortes desnecessários ou sido mais criteriosos diante de escolhas entre grandes subsídios para resgatar instituições financeiras e benefícios de desemprego para amortecer o impacto da crise para os pobres."





