O vírus da Aids está colocando o futuro da espécie humana em risco e não será possível produzir uma vacina eficiente contra a doença. Os dois alertas apocalípticos foram feitos pelo biólogo Crodowaldo Pavan, da Universidade de São Paulo (USP), durante sua conferência ‘‘Sociedade, Aids e Futuro da Espécie’’, no último dia da 53ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
‘‘A situação é grave e o risco da espécie, principalmente por causa do que está ocorrendo na África’’, disse. ‘‘Lá existem 25 milhões de aidéticos e cada um deles porta bilhões de vírus.’’
Segundo Crodowaldo Pavan, é nessa astronômica quantidade de HIV, aliada ao fato de ele ser um retrovírus, é que mora o perigo. ‘‘O HIV é um vírus de RNA e também um transposon, isto é, ele tem a capacidade de copiar pedaços de DNA do hospedeiro ou de organismos e transferi-lo para o próximo organismo que infecta’’, explicou Pavan.
‘‘Assim, vou exagerar um pouco, mas não muito. Vamos supor que uma pessoa infectada com o HIV pegue o vírus do resfriado. Poderia ocorrer, num cenário extremo, que o primeiro adquira do segundo a capacidade de contagiar pelo ar. Ou que o vírus do resfriado adquirisse do HIV a capacidade de atacar o sistema imunológico. Seria uma catástrofe. O pior é que, devido a enorme quantidade de HIV nas pessoas contaminadas, isso não é assim tão impensável.’’
Quanto à vacina, Pavan é cético. ‘‘Devido à incrível capacidade de mutação e adaptação do HIV, ao fato de ser um transposon e a sua grande quantidade, em pouco tempo ele adquiriria resistência contra uma eventual vacina’’, adverte. ‘‘Prova disso, que estudos recentes demonstram que nos Estados Unidos os coquetéis antiaids são ineficientes em 10% dos pacientes. Quer dizer, 10% dos vírus já são resistentes a estas drogas.’’
Para Crodowaldo Pavan, a solução passa pela educação e programas sérios de ação contra a doença e, principalmente, acabar com as desigualdades, que levaram a essa situação calamitosa na África.

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