Bingo à moda antiga recupera espaço perdido
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sábado, 13 de maio de 2006
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
''Dois patinhos na lagoa'', ''idade de Cristo'', ''duas magrelas na passarela'', ''pingo no pé'', ''boa idéia''. É isso mesmo: o tradicional bingo está de volta. Com o fechamento dos bingos eletrônicos, bares e botequins de Londrina redescobriram a diversão que parecia estar sepultada e existia apenas nas lembranças dos finais de ano em família. Mais uma coisa é preciso registrar: o jogo retornou com um certo ar clandestino, mesmo que não sirva mais ao financiamento de campanhas políticas, à lavagem de dinheiro, ao crime organizado.
Encontrar quem esteja disposto a revelar-se é quase impossível. Os jogadores ficam expostos nas esquinas, as cartelas estão ao alcance das mãos em grandes balcões, o ''cantador'' das dezenas se faz ouvir pelo microfone mas, ainda assim, as pessoas exigem o anonimato. O dono de um bar dá uma pista do motivo da precaução. ''É proibido'', fala, para logo depois admitir que ''todo mundo faz vista grossa''. Ele diz que começou com o bingo há três anos e o negócio deu tão certo que até deixou de trabalhar sozinho. ''Hoje tenho seis funcionários que me ajudam'', orgulha-se.
No bar, assim como nos outros que resgataram essa antiga diversão, três cartelas impressas em um compensado custam R$ 1,00. Ganha uma cerveja quem completa a sequência horizontal de cinco números. Os prêmios, aliás, são bem mais modestos e nem de longe se aproximam daqueles distribuídos pelos bingos eletrônicos. No máximo, quem enche a cartela primeiro consegue faturar entre R$ 100,00 e R$ 150,00, dinheiro que quase sempre nem vai para a carteira do sortudo. Normalmente, o prêmio retorna para o dono do estabelecimento em troca de cerveja e porções, numa ciranda bem vantajosa para os comerciantes. ''Se acabar o bingo, eu fecho o bar'', sentencia o dono. Os bares também sorteam relógios, eletrodomésticos, caixas de cerveja, entre outros prêmios.
Um segundo proprietário de bar confirma que o movimento de ''clientes-apostadores'' cresceu muito desde que os ''bingões'' foram forçados a fechar as portas: ''Aumentou bastante porque o pessoal não tem para onde ir''. Basta olhar ao redor para entender o que ele quer dizer. A clientela é formada, em grande parte, por senhores e senhoras compenetrados em suas cartelas e atentíssimos ao ''cantador'' das dezenas. Mas, se nos ''bingões'' os apostadores eram movidos pela falsa esperança do dinheiro fácil, agora esperam simplesmente pelo prazer de pronunciar a palavra ''bingo'' na frente dos concorrentes. ''Acho que não deveria ser proibido, porque aqui quem vem é porque gosta. Sabem que não tem esse negócio de pedra controlada como tem naqueles outros bingos'', valoriza o dono do bar, enquanto observa as mesas lotadas.
Num outro bar, o dono do lugar ''passou'' o bingo para um amigo, um funcionário público que não revela quanto lucra. Ele garante que ninguém gasta mais do que R$ 10,00 por noite com o jogo e, por isso, considera que a diversão não tem a mesma nocividade dos jogos de azar.
As autoridades policiais, porém, não avaliam dessa forma. O delegado-chefe da 10 Subdivisão Policial, Sérgio Luiz Barroso, entende que ''bingo é bingo, e se um é proibido, o outro também é''. Ele reforça que essa modalidade de jogo é classificada como contravenção penal e quem for flagrado explorando a atividade ou jogando pode ter de responder a um termo circunstanciado de infração penal.
Mesmo assim, aqui vai uma ajudazinha para quem quiser fazer uma ''fezinha'' sem ''comer barriga'' enquanto o ''cantador'' sorteia as dezenas: ''dois patinhos na lagoa'' é igual ao número 22; ''idade de Cristo'' é o 33; ''duas magrelas na passarela'' é a dezena 11; ''pingo no pé'' é o 9; ''boa idéia'' é o 51.


