Bimini, que teve café e muita gente, simboliza a aventura dos Kirchheim
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domingo, 12 de julho de 2015
Widson Schwartz<br>Especial para a FOLHA 
Rolândia - Típica propriedade cafeeira em Rolândia (Região Metropolitana de Londrina), a Fazenda Bimini não figurava entre aquelas em transição para a soja quando ocorreu a geada em 1975, mas o vaticínio do comerciante Abrunhosa - "O café vai acabar", lá se confirmou na década seguinte, um trauma para o alemão Hans Kirchheim, o fundador.
"Até 1981, o pai queria ficar com o café, para ele era o melhor jeito de se viver", conta Ruth Bárbara Steidle, filha. "Convencido a mudar, ele nunca mais teve aquela alegria, talvez porque mais de 20 famílias foram embora aos poucos." Quando o café acabou, as casas da "colônia" foram desmanchadas e a madeira guardada, assim permanecendo. Em época de colheita, a fazenda chegou a ter 60 famílias incluindo as temporárias.
O acervo fotográfico mostra a convivência das famílias agregadas (meeiros, parceiros etc.) outrora e indica que, mais tarde, prevaleceu o Estatuto do Trabalhador Rural, "de 1968 para cá, antes não havia livro de registro", informa Ruth, para quem a legislação "quebrou aquele vínculo afetivo e impôs o vínculo burocrático". Ela reconhece fisionomias no painel, cita nomes e até graus de parentesco entre alguns.
Em síntese, a propriedade, que teve 170 mil pés de café e 25 famílias morando, simboliza a aventura romântica de Hildgard Annemarie Fritache e Hans Kirchheim, inspirada na lendária Bimini (ver box).
SUPERANDO A PRIMEIRA GEADA
Recém-casados, em 1936 eles começaram a desbravar 86 alqueires (208 hectares), adquiridos da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), origem da fazenda. Um desafio para europeus urbanos, observa Ruth. A geada em 1942 fez com que procurassem trabalho no Rio de Janeiro, buscando dinheiro para cobrir o prejuízo do café estragado. Médica, Hildgard não pôde exercer a profissão, seu português insuficiente não permitia validar o diploma. Hans acabou aventurando-se em Goiás, levando o pagamento a "garimpeiros" que extraíam cristal de rocha, estratégico na Segunda Guerra Mundial. Zona de perigo, pois aqueles homens eram presidiários em trabalho condicional remunerado.
Passados 15 anos desde a abertura da fazenda, Hildgard e Hans foram à Alemanha "e ainda sentiram que não era lá, era aqui o porto seguro da vida deles". Ruth nasceu em 1938, na fazenda, e tempos depois permaneceria 12 anos na Europa. Casou-se na Alemanha, com Ferdinand Steidle, tornou-se mãe e decidiu regressar, sozinha.
Espaço para outras commodities atualmente, a Bimini tem só um cafeeiro, nascido de uma semente ao acaso. "Mixaria, uma vergonha", diz Ruth. Mas o filho Daniel, que veio da Alemanha com 11 anos e é administrador com mestrado em Geografia e Zoneamento Ambiental, cogita uma lavoura moderna de café, que possa merecer um certificado ou menção. Talvez a essência para um cafezal sombreado esteja no florestamento da fazenda, conduzido em convênio com a Embrapa.
Pela história documentada, o terreiro de café e as construções de peroba preservadas, entre elas a casa de 600 metros quadrados, a Fazenda Bimini é um memorial. Só está faltando, mesmo, a lavoura de café.


