Biggs regressa à prisão na Grã-Bretanha
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segunda-feira, 07 de maio de 2001
France Presse De Londres 
Um dos mais famosos fugitivos da história criminal britânica, Ronald Biggs pôs fim a quase 36 anos de fuga. Ele se entregou à Justiça de seu país e torce para que advogados consigam revogar a sentença dada em 1964
Ronald Biggs, um dos mais famosos fugitivos da história criminal britânica, pôs fim ontem a quase 36 anos de fuga, dos quais 31 de exílio ensolarado no Brasil, ao se entregar à Justiça de seu país que imediatamente o enviou novamente à prisão.
No final de um regresso marcado por uma grande mobilização da mídia, com a cumplicidade do jornal popular britânico The Sun, que fretou um avião particular, Ronnie Biggs, 71 anos, um dos autores do assalto ao trem-postal Glasgow-Londres em 1963, voltou ao território britânico ontem pouco antes das 9 horas locais (5 horas de Brasília).
Após desembarcar numa base aérea militar no interior da Inglaterra, o líder do assalto ao trem-pagador, foi imediatamente preso pela Scotland Yard. Sessenta policiais o esperavam na base da Royal Air Force de Northolt, noroeste de Londres. Alquebrado por três ataques cerebrais e sem dinheiro, conforme declarou à imprensa, o assaltante Ronald Biggs, foi detido como estava previsto, 20 minutos depois de sua chegada, oficialmente por ter fugido ilegalmente.
Biggs foi submetido a um exame médico numa delegacia londrina, cujo resultado atestou que estava apto a comparecer diante de um juiz. A sessão no tribunal de Hammersmith (oeste de Londres) constituiu um reencontro com a jUstiça de seu país depois de quase 36 anos. Biggs foi levado em seguida à penitenciária de Belmarsh, no sudoeste de Londres, onde deve permanecer, pelo menos nos próximos dias.
Em 1964, a Justiça britânica o condenou a 30 anos de prisão por sua participação no assalto do século. Porém 15 meses mais tarde, fugiu da prisão de Wandsworth (Londres) e, depois de mudar de rosto na França mediante uma cirurgia plástica e transitar pela Espanha, Austrália e pela selva sul-americana, se refugiou no Brasil em 1970.
Ontem à tarde, o juiz Tim Workman não pronunciou uma nova condenação, mas ordenou o ingresso de Biggs em uma cela do presídio de Belmarsh, o que se tornou efetivo às 14h36 locais (10h36 Brasília).
Teoricamente ele corre o risco de purgar os 28 anos que ainda deve ao seu país, mas disse ao The Sun que contava com certa indulgência dos juízes, devido ao seu péssimo estado de saúde.
Durante um comparecimento de alguns minutos, o ex-playboy deu a imagem de um velho homem atingido por três ataques cerebrais, que o deixaram praticamente sem poder se expressar.
Assim, respondeu mediante sons mal perceptíveis às perguntas do juiz, que o interrogou sobre sua identidade. Um médico da polícia teve que limpar seu queixo, molhado de saliva, várias vezes.
A discrição de seu regresso ao seu país contrastou com a mobilização da mídia que cercou sua partida na véspera no aeroporto do Rio de Janeiro.
Vestido com uma camiseta do The Sun, o fugitivo embarcou domingo à noite a bordo do luxuoso avião Falcon, acompanhado por uma equipe do tablóide, seu filho Michael, e seu ex-cúmplice, Bruce Reynolds.
Este último, considerado como o verdadeiro cérebro do assalto, que rendeu 2,6 milhões de libras (US$ 3,7 milhões) para seus autores, foi condenado a 25 anos de prisão, dos quais purgou 10 antes de ser libertado.
Ao The Sun, que organizou sua volta, Biggs disse que decidiu pôr fim ao seu exílio porque queria acabar sua vida em seu país e não ser mais uma carga para seu filho.
Segundo informações publicadas pela imprensa, gastou toda sua parte do roubo, estimada em 147.000 libras (US$ 212 mil), e carece de meios para pagar os tratamentos médicos.
Sejam quais forem os motivos, a espetacular rendição de Biggs suscitou animados debates na Grã-Bretanha: sobre a sorte que o espera, mas também sobre os métodos utilizados por The Sun para obter sua repatriação, e de passagem um furo.
Vários meios de comunicação afirmaram que o tablóide entregou 44.000 libras (US$ 63 mil) aos próximos de Biggs, violando as normas de boa conduta ditadas pelo órgão encarregado de velar pelo respeito da deontologia da imprensa (Press Complaints Commission).
Esta última anunciou anteontem a abertura de um inquérito sobre o papel desempenhado por The Sun, que curiosamente colocou na primeira página: O temos: depois de 13.068 dias de fuga, devolvemos Biggs à Justiça de seu país.


