Brasília, 24 (AE) - O bicheiro brasiliense Manoel Ventura Durso, o "Manoelzinho", confirmou hoje ter bancado financeiramente, em 1998, a maior parte dos gastos da campanha eleitoral do então candidato ao governo do Distrito Federal, eleito governador, Joaquim Roriz (PMDB). Em troca do apoio, contou, os dois fecharam um acordo em que, se eleito, Roriz ajudaria "Manoelzinho" nos negócios, implementando a Loteria Social do Distrito Federal - que estará funcionando no primeiro semestre de 2000 - e entregaria o comando a pessoas ligadas aos bicheiros da região.
Pelo trato verbal com Roriz, segundo o bicheiro, nenhum outro grupo entraria no mercado do bicho brasiliense. Durso diz ter enviado a Roriz um projeto sobre a loteria, em que indicou nomes da confiança dele para integrar a comissão de licitação da mesma. O assessor de Comunicação do governo do Distrito Federal, Welligton Moraes, considera "absurdas" as revelações de "Manoelzinho" e o ameaça de processo. Moraes admite, no entanto, que teve um rápido contato com o bicheiro, mas nega que ele tenha contribuído financeiramente com a campanha de Roriz.
Para cumprir o acerto financeiro, "Manoelzinho" teve de pedir dinheiro a agiotas. "Por conta disso, eu estou pendurado (devendo) em mais de R$ 800 mil", afirmou. Esse dinheiro, segundo ele, foi usado no segundo turno da campanha de Roriz. "Agora, depois que fui enganado, tenho de vender minha mansão para honrar o empréstimo." "Manoelzinho" tem uma mansão no Park Way, área nobre de Brasília, próxima à casa do governador a quem financiou. O bicheiro afirma ter recebido ameaças de morte após ter feito as denúncias.
Além de bancar a campanha de Roriz, repassando-lhe, em espécie, uma quantia mensal que começou com R$ 10 mil e passou para R$ 15 mil no auge da campanha, Durso garante ter sido autor do panfleto apócrifo "Venderam o PT". No panfleto, que, segundo o bicheiro, foi confeccionado a pedido de Roriz, é denunciado que líderes do PT como o presidente de honra do partido, Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Lauro Campos (DF) e os ex-deputados Chico Vigilante (DF) e Maria Laura haviam aliado-se a Osório Adriano, ao deputado Paulo Octávio (PFL) e ao PFL. O bicheiro conta que mandou imprimir 500 mil panfletos fora de Brasília. "Mas não me recordo quanto custou." Segundo ele, esse panfleto foi responsável pela vitória de Roriz no segundo turno.
O panfleto que afirma ter confeccionado condenava uma suposta aliança do PT com lideranças do PFL de Brasília, além de pregar voto branco e nulo contra o então candidato do PT ao governdo do Distrito Federal, Cristóvam Buarque, que disputava a reeleição. Buarque era chamado de "traidor" no panfleto impresso pelo bicheiro, a pedido de Roriz. "Fiz tudo isso a pedido de Roriz", confessa "Manoelzinho", ao explicar que o então candidato Roriz esteve na sua casa pedindo apoio financeiro para a campanha. Apesar da ajuda a Roriz, "Manoelzinho" afirma que só teve dissabores. Disse ter procurado o governador eleito para discutir o acordo verbal de campanha, mas sem sucesso. "Procurei o governador (Joaquim Roriz) umas 20 vezes; ele só me recebeu uma vez quando lhe entreguei o projeto da loteria." Pelo projeto, que o bicheiro diz ter entregue a Roriz, o governo do Distrito Federal nomearia uma comissão para implementar a Loteria Social. Essa comissão, segundo "Manoelzinho", atuaria no sentido de beneficiar apenas os bicheiros - incuindo o próprio - que atuassem em Brasília.
O procurador-geral do Ministério Público (MP) do Distrito Federal, Humberto Ulhôa, disse que "Manoelzinho" também será investigado e deverá responder a processo por ter admitido ser bicheiro e também ter cometido crime eleitoral.
Ulhôa confirmou que "Manoelzinho" não apresentou qualquer prova documental, mas explicou que as provas testemunhais podem ter a mesma importância. O bicheiro garantiu, no entanto, que porá à disposição do MP todas os que testemunharam o encontro dele com Roriz. Uma dessas testemunhas é o Jovecy de Oliveira, que, segundo o bicheiro, era quem levava o dinheiro - sempre em espécie - para Roriz no dia 30 de cada mês.
"Apostei tudo em Roriz, mas acebei entrando num barco furado", lamenta-se "Manoelzinho", quando lembra que teve um infarte por causa do acordo não-cumprido por Roriz. "Eu tive infarte, mas, agora, são eles quem vão morrer do coração, de raiva", avisa o bicheiro, afirmando que fará tudo para impedir que a Loteria Social do Distrito Federal, que foi licitada, fique nas mãos de um grupo de Goiás rival de "Manoelzinho". "Se querem guerra, eles vão ter guerra".

mockup