São Paulo, 10 (AE) - Na semana passada, os técnicos do Banco Central e do Fundo Monetário Internacional (FMI) discutiram no Rio de Janeiro o modelo de "inflation targeting"
que deverá ser implementado a partir do segundo semestre. Neste modelo, o BC anunciará uma meta inflacionária para um horizonte, provavelmente, de um ano e vai se utilizar dos mecanismos de política monetária (basicamente a taxa de juros) para fazer com que esta meta seja alcançada.
Na fase de sua implementação, os juros poderiam se comportar de três formas possíveis, apontam os analistas do BicBanco Paulo Mallmann e Luiz Rabi:
1) Manter as taxas de juros elevadas - É pouco provável que o BC esteja trabalhando com esta hipótese, cujo apelo maior seria manter a taxa de inflação baixa pela valorização cambial (dólar ao redor de 1,65 reais) e às custas de se perpetuar o baixo crescimento da economia brasileira. Também, nesta hipótese
o país poderia financiar seus desequilíbrios externos via ingresso de capitais de curto prazo.
Em outras palavras, um retorno ao modelo que prevalecia antes da mudança cambial. Neste cenário, no entanto, o endividamento interno do setor público como proporção do PIB continuaria em trajetória explosiva, culminando numa inevitável renegociação compulsória da dívida interna. Foi justamente para desmontar este cenário de baixo crescimento, financiamento do déficit externo com capitais de curto prazo e desequilíbrio crescente do setor público é que houve a alteração da política cambial, em janeiro.
2) Redução rápida dos juros - Era o que imaginávamos que aconteceria num horizonte de dois a três meses após a mudança do regime cambial. Porém, na ânsia de se debelar os focos inflacionários, o BC utilizou-se de uma política monetária restritiva combinada com a revalorização da taxa de câmbio. Como resultado, a inflação recuou bem mais rapidamente do que se poderia esperar, revelando que houve certo exagero na dose.
Como efeitos colaterais, tivemos o agravamento do desemprego nos grandes centros urbanos e o desempenho medíocre da balança comercial. Ao estimular o recuo da taxa de câmbio para 1,65 R$/US$ e não para níveis um pouco mais elevados (ao redor de 1,85 R$/US$), o BC vem impedindo que se maximize a substituição dos importados por produção doméstica seja nos insumos industriais quanto no consumo de bens finais. Assim, se o BC imprimir maior velocidade na queda dos juros daqui e m diante, a reativação econômica que daí se seguiria colocaria por terra as chances da balança comercial produzir um superávit superior a US$ 3 bilhões este ano.
É claro que, como o câmbio agora é livre, a queda mais rápida dos juros aliada a um déficit em transações correntes ainda expressivo acabam promovendo desvalorizações na taxa de câmbio. Alteram-se os preços relativos das importações / exportações, gerando resultados melhores na balança comercial. Mas isto acontece num segundo momento. O efeito da absorção (crescimento econômico aumentando o déficit comercial) ocorre primeiro.
3) Redução mais gradual dos juros, elevando o prazo mínimo de captação - Este parece ser o caminho que vem sendo seguido pelo BC. Se reduzir muito rapidamente os juros piora o resultado da balança comercial; se não reduzi-los perpetua a recessão e coloca a dívida pública em trajetória explosiva. A saída seria uma redução gradual dos juros, reativando a economia aos poucos e promovendo um deslizamento suave da taxa de câmbio para níveis mais elevados.
Nesta hipótese, a inflação não fugiria do controle, a economia entraria numa rota de crescimento (porém ainda pequeno, algo como 2,5% a 3% a.a.) e a balança comercial seria corrigida gradativamente pela mudança dos preços relativos. "Nesta hipótese, o BC também promoveria elevação do prazo mínimo de captação de recursos externos", apontam Mallmann e Rabi.

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