Betinho será o símbolo do Natal de 1997
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domingo, 10 de agosto de 1997
Agência Estado Rio 
Arquivo FolhaDesejo de viverO engajamento em lutas sociais foi fundamental para que Betinho prolongasse seu tempo de vidaUm emocionado ato de despedida, ao fim do qual as cerca de 500 pessoas presentes cantaram O Bêbado e o Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, e rezaram o pai-nosso de mãos dadas, marcou o velório do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, ontem, na Assembléia Legislativa do Rio (centro). Betinho, que tinha 61 anos, morreu às 21h10 de sábado em consequência de insuficiência hepática. Ele era hemofílico e sofria de Aids. Segundo o filho mais velho de Betinho, Daniel Carvalho de Souza, 31, o sociólogo deixou instruções para que não fosse realizada cerimônia religiosa em sua homenagem. Militante católico na juventude, Betinho morreu sem filiação religiosa.
Frei Betto leu o Sermão das Bem-Aventuranças, do Evangelho de São Mateus durante o ato de homenagem a Betinho. Também falaram parentes dele, o pastor evangélico Caio Fábio e o ex-vereador do PT Chico Alencar. Em atendimento a outro pedido de Betinho, seu corpo será cremado hoje, às 9 horas, no cemitério do Caju, no Rio. As cinzas serão espalhadas no sítio que ele tinha em Itatiaia, no sul fluminense.
A morte de Betinho não vai interromper os projetos nos quais o sociólogo estava engajado. Ontem, em meio ao clima de emoção do velório, parentes e amigos do criador da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida fizeram questão de deixar claro que o trabalho iniciado por ele terá continuidade, conforme desejo do próprio sociólogo.
De acordo com o economista Maurício de Andrade, coordenador dos comitês da cidadania no Rio, numa das últimas conversas com Betinho os dois definiram o dia do lançamento da próxima campanha Natal Sem Fome, marcado para 16 de dezembro, Dia Mundial da Alimentação. Segundo ele, o sociólogo estava bastante preocupado com o andamento do projeto Restaurante da Cidadania, que prevê a comercialização de refeições a preços reduzidos. O restaurante deverá ser instalado num prédio da Praça XV cedido pela Companhia Nacional de Abastecimento, mas o projeto está ameaçado porque a prefeitura quer demolir o imóvel.
Segundo Andrade, mesmo combalido Betinho transformava as visitas que recebia dos amigos em verdadeiras reuniões de trabalho. A última reunião ocorreu na quarta-feira. Na ocasião, ele mandou um recado para que nós diminuíssemos as reuniões e partíssemos para ações, conta o economista. Segundo ele, este ano o símbolo da campanha Natal Sem Fome será uma charge que mostra Betinho empinando um papagaio que corta um outro papagaio simbolizando a fome.
A primeira-dama Ruth Cardoso chegou no início da tarde de ontem ao velório do sociólogo e permaneceu ali cerca de meia hora. Ela ficou quinze minutos conversando com a família do sociólogo. Antes de ir embora, ela se aproximou do caixão e beijou Maria Nakano, viúva de Betinho, e Daniel, filho do sociólogo.
Dona Ruth disse que o presidente Fernando Henrique Cardoso não pôde comparecer ao velório porque tinha muitos compromissos. Na opinião da primeira-dama, os movimentos populares não vão perder força com a morte de Betinho. O Brasil é um País onde existe solidariedade - isso já está conquistado.
A primeira-dama afirmou que manteve uma boa relação, de respeito, com Betinho, mesmo depois das críticas feitas pelo sociólogo ao Programa Comunidade Solidária, que ela dirige. Mesmo assim, continuou me apoiando e, ao que eu saiba, nunca desqualificou esse trabalho.
O governador do Paraná, Jaime Lerner, lamentou ontem a morte do sociólogo Hebert de Souza. Betinho fez da vida um ideal de solidariedade ao colocar a sua luta acima de tudo, até de seu drama pessoal, afirmou o governador. Lerner disse que se acostumou a ver em Betinho a face da esperança. O governador disse ainda que a morte do sociólogo comove a todos.


