Bernard Buffet causa polêmica até na morte Do correspondente REALI JR
Paris, 06 (AE) - Amado pelo público, mas desprezado pela crítica, o pintor Bernard Buffet suicidou-se na segunda-feira em Tourtour, no sul da França, aos 71 anos. Autor de 8 mil gravuras e litografias , o artista era amado especialmente pelos japoneses, que acumulam 2 mil de suas obras no Museu Bernard Buffet, em Mishima, cidade a 150 quilômetros de Tóquio.
Buffet sofria do mal de Parkinson e havia dito a seu marchand, Maurice Garnier, proprietário de uma famosa galeria nos Champs Elysées, que poria fim a seus dias no dia que não pudesse mais pintar. Com muita dificuldade, ainda conseguiu terminar uma última tela de uma exposição sobre a morte. Só não antecipou a seus amigos a forma de seu suicídio, asfixiando-se com um saco plástico.
Buffet optou pelo mesmo tipo de morte do psicanalista Bruno Bettelheim, de quem se dizia ter reunido "todas as características de um gênio sem sê-lo".
Sem dúvida, de toda a sua geração, ele foi talvez o pintor mais desprezado pelos críticos que, nos últimos tempos, o ignoravam solenemente. Só a revista Paris Match dedicava anualmente três ou quatro páginas para suas exposições anuais na Galeria Maurice Garnier.
Agora, com sua morte, as homenagens voltam a ser numerosas, bem como um certo reconhecimento, mesmo do poder constituído. O presidente Jacques Chirac manifestou sua tristeza pelo desaparecimento de "um grande pintor dos nossos tempos" e o primeiro-ministro Lionel Jospin lembrou que "ele encarnou na França do pós-guerra o sofrimento de um país profundamente marcado pelo conflito". Apesar de sua consagração internacional, Buffet esperava ainda ser plenamente reconhecido no seu país. Jospin pretende promover, muito em breve, uma grande retrospectiva de sua obra. Esse anúncio provoca tremores em alguns conservadores de museus públicos da capital.
Buffet foi também um homem que estimulava as polêmicas em torno dele, mantendo relações tempestuosas com a crítica e a imprensa. "Geralmente, não leio jornais, só o Figaro literário ou o Lettres Françaises de Aragon", costumava responder quando lhe indagavam se havia lido as últimas críticas a suas obras. Sobre Picasso afirmava sem hesitar: "Tem boas e más coisas, certas telas são gratinadas; nesses dias teria sido melhor se ele tivesse ido pescar."
Quanto à pintura abstrata, não tinha a menor consideração por ela, revoltando-se quando levavam crianças de escolas para ver uma exposição dessa natureza: "Ninguém tem o direito de deformar o gosto das crianças." Sobre o Centro Georges Pompidou, de Paris, simplesmente dizia jamais ter colocado os pés lá.
Em 1951, o crítico da Gazzette de Lausanne não podia ser mais caústico: "Bernard Buffet parece ter prometido algumas telas a seu marchand, não podendo esperar a inspiração para cumprir esses seus compromissos." Célebre aos 30 anos, ele teve de ler na época de sua primeira retrospectiva o seguinte comentário dos colunistas: "Buffet saberá contornar os perigos da moda e da celebridade?"
Pintor compulsivo, Buffet respondia também com uma produção em massa. Uma de suas pinturas foi parar, por exemplo, em capa de disco de Ella Fitzgerald. Sempre muito bem aceito pelo mercado, suas telas se venderam sem problemas, apesar de ter mantido do começo ao fim quase o mesmo estilo, abrindo a guarda para críticas. Não seria exagero comparar Buffet ao escritor brasileiro Paulo Coelho, outro desprezado pela intelectualidade e pela crítica, mas com grande sucesso em todo o mundo e um público dos mais diversificados. De certa forma, Buffet também sempre foi amado pelo público e destestado pelas elites.
Nascido em Paris, no dia 10 de julho de 1928, mau aluno, acompanhou apenas alguns meses o curso da Escola Nacional Superior de Belas Artes de Paris. Isso não impediu sua explosão, três anos depois, em 1947, quando realizou sua primeira exposição individual, organizada por Guy Wheelen, que mais tarde seria o secretário de Vieira da Silva. Sua carreira foi fulgurante e poucos artistas na época tiveram o mesmo êxito. No mesmo ano, ganhou o prêmio da jovem pintura, fascinando a juventude, que reconhece na sua obra uma descrição justa de Paris do pós-guerra.
Nos anos 50, seus quadros foram altamente valorizados. Maitre Tajan, famoso até hoje por seus leilões em Paris, lembra do Cristo na Cruz, pintado em 1946 e adquirido por 3,3 milhões de francos. Em 1955, a revista Conaissance des Arts organizou um concurso para designar os melhores pintores do pós-guerra, sendo Buffet o laureado.
Buffet morreu ao lado de sua esposa Annabel Schwob de Lur, que lhe foi apresentada por Françoise Sagan, em 1958. Ela era uma das musas do existencialismo francês da década de 50, ao lado de Juliette Gréco. Manequim e cantora das caves de Saint-Germain-des-Prés, o casamento de Annabel com Buffet foi destaque dos jornais parisienses, mas o espetáculo não agradou aos críticos que não perdoavam o artista.
Segundo a crítica, a pintura de Buffet tem gosto de banana. Alguns comentários chegaram a irritar o artista. "Sua pintura não melhora e não se deteriora", afirmou o crítico Andrés Chastel, acrescentando: "Todo ano, sua exposição pessoal na Galeria Maurice Garnier tem sido esperada como se espera o beaujolais, lamentando-se o gosto de banana que já havia marcado a safra anterior."
Buffet produzia uma centena de telas por ano. Nos últimos anos, vinha se marginalizando permanecendo em Tourtour, na região do Var , em companhia de Annabel. Agora, após sua morte, o governo francês já está prometendo uma retrospectiva do pintor. Aliás, numa de suas últimas entrevistas à revista Paris Match, ele tinha certeza de que isso iria ocorrer, mesmo se já estivesse no cemitério do Pére Lachaise. Sua previsão parece ter sido correta.





