Berlim volta a ser o centro do poder da Alemanha Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 23 (AE) - Uma das mais jovens capitais do mundo, Berlim, inaugurada hoje (23), é também uma das mais antigas, pois foi criada em 1237. É também uma das mais famosas: capital da Prússia no século 18, sob o reinado de Frederico, o Grande, (amigo de Voltaire) e depois, no século 19, centro intelectual formidável, onde vemos Humboldt, Hegel ou Fichte, Berlim torna-se em 1871 a capital do Império alemão.
Acontecem depois duas guerras: a de 1914-1918, que a deixa extenuada; depois os nazistas ali se instalam e Hitler se suicida no meio de seus escombros, em maio de 1945. E vem então uma nova provação para esta grande cidade: A Alemanha comunista (a República Democrática Alemã - RDA) faz dela a sua capital, enquanto a Alemanha livre (a República Federal Alemã - RFA) se estabelece sobre a margem direita do Reno, na pequena cidade adormecida de Bonn até os dias de hoje.
Com a destruição do Muro de Berlim em 1989, foi lançado o processo para que a capital deixe a cidade de Bonn e volte para Berlim. Um processo de dez anos, que agora se completa com a chegada do chanceler Gerhard Schroeder.
Este "retorno a Berlim" tem um duplo sentido nos registros complementares do tempo e do espaço.
No que se refere ao espaço, o centro de gravidade da Alemanha e, portanto, o da Europa, oscila bruscamente. Em Bonn, os chanceleres (Adenauer, Schmidt, Brandt, Kohl) eram "plenamente ocidentais", a 70 quilômetros da Bélgica e nesta região renana que cultiva a vinha e confina com a França.
Berlim, ao contrário, obriga a fazer um salto gigantesco em direção ao leste: a Chancelaria ficará a 90 quilômetros da Polônia, na direção da Rússia.
A dimensão do tempo - da história, da memória - é também pesadamente remanejada. Bonn não tinha passado. Em Berlim, o passado se acumula , se amontoa, e este passado nem sempre teve um odor delicioso.
É sobre as pegadas ou as lembranças de dois regimes detestáveis que os arquitetos da nova Berlim tiveram de semear ou renovar suas construções - o período trágico do nazismo e o período perturbado e mortífero da RDA comunista.
O Reichstag, incendiado em 1933 por uma provocação nazista, foi restaurado por um arquiteto britânico. O ministro da Defesa de Schroeder se mudará para o antigo Estado-Maior da Wehrmacht, no local onde foi fuzilado em 1944 o conde von Staufenberg, que havia perpetrado um atentado contra Hitler.
O ministro do Trabalho de 1999 herda o Ministério nazista onde agia Goebbels. O ministro das Finanças assinará suas decisões nos escritórios ocupados outrora pelo marechal Goering.
Quanto ao chanceler Schroeder, é a uma outra vergonha da história alemã que ele irá sacrificar: Schroeder irá tomar posse do palácio do Conselho de Estado, ocupado outrora pelo último chefe da RDA comunista, Erich Honecker.
Será que precisamos ficar chocados (ou mesmo preocupados) ao ver o governo da Alemanha democrática instalar-se nestes lugares satânicos? Os alemães se defendem. Em primeiro lugar, dizem eles que a história de um povo é uma onda contínua, que não se pode amputar da cidade certos períodos, por mais negros que tenham sido. O importante é ficar atentos para não recair nos erros.
E, depois, como o passado da Alemanha (da mesma forma que o de Roma, ou de Londres, ou de Paris) é extraordinariamente denso, cada lugar desta capital é uma encruzilhada de "memórias" diversas, opostas, antagônicas.
Este é, por exemplo, o caso do prédio do Conselho de Estado da Alemanha comunista para o qual irá mudar-se o chanceler Schroeder (aliás depois de alguns trabalhos a serem realizados).
Anteriormente, estava prevista a demolição do prédio do Conselho de Estado que exalou os odores do comunismo mórbido da RDA. Mas depois se percebeu de que este edifício já tinha uma história antes que Erich Honecker o desonrasse. E uma história de prestígio: efetivamente, o Conselho de Estado faz parte do portal do antigo castelo dos Hohenzollern (portanto, a "glória do Império") e também, como que por conta do equilíbrio, é o local onde Karl Liebknecht (um comunista tão fascinante quanto Honecker) proclamou em 1919 "uma república socialista livre" (que teve poucos anos de vida).





