Beozzo, um Padre Marcelo às avessas


Nelson Capucho

Um dos mais conceituados teólogos brasileiros, o padre José Oscar Beozzo ocupa lugar de destaque na ala progressista da Igreja Católica da América Latina e vem conquistando o respeito de intelectuais religiosos europeus. Autor de vários livros, entre os quais ’’A Igreja do Brasil de João XXIII a João Paulo II De Medellin a Santo Domingo’’ (Ed. Vozes, 1996), ’’Brasil, 500 Anos de Migrações’’ (Ed. Paulinas, 1992), o padre Beozzo é também co-autor e o responsável pela edição nacional da ’’História do Concílio Vaticano II’’, obra de fôlego coordenada pelo italiano Giuseppe Alberigo. Nascido em Santa Adélia (SP), em 14 de janeiro de 1941, criou-se em Lins (SP), onde fez os cursos ginasial e colegial. Estudou filosofia em São Paulo, teologia na Universidade Gregoriana de Roma, sociologia e comunicação social na Universidade de Lovaina, na Bélgica.
De fala mansa e postura serena, José Oscar Beozzo é uma espécie de Padre Marcelo às avessas. Veste-se com despojada elegância e, ao contrário de seu irmão de fé que se tornou estrela da mídia, padre Beozzo não se sente muito à vontade diante das câmeras fotográficas. ’’Fotógrafos de jornal gostam de flagrar entrevistados em poses incômodas’’, diz, com um sorriso tímido. A convite do Instituto Ciência e Fé, padre Beozzo esteve recentemente em Curitiba para falar sobre o tema ’’Os cristãos frente aos desafios sociais, culturais e religiosos deste final de século’’. Nesta entrevista à Folha, assuntos como o movimento carismático, o posicionamento da Igreja Católica durante a escravidão dos negros no Brasil e o desabamento da ética na política e na economia não ficaram sem uma abordagem do teólogo.


Folha: Quais são os principais desafios dos cristãos neste final de século?
Padre José Oscar Beozzo: O primeiro grande desafio é a questão da exclusão social, que atinge um número cada vez maior de pessoas. No Brasil, com o alto nível de desemprego, a situação piorou profundamente. Trata-se de uma questão de fundamental importância porque está relacionada à própria sobrevivência das pessoas. Este é um grito que precisa ser lançado à consciência da sociedade.
Folha: A Igreja, como instituição, não tem também seus desafios?
Padre Beozzo: Um desafio é como falar de Deus numa sociedade secular onde Deus tornou-se prescindível, deixou de ser um referencial para quem estava no campo das ciências, das artes. A sociedade moderna espantou Deus da ecomomia, da política e mesmo das relações sociais, mas não eliminou a busca de Deus do coração das pessoas. É preciso encontrar uma linguagem e viver a experiência religiosa de maneira significativa, compreensível e, diria até, de maneira empolgante. As pesoas são sensíveis a Madre Teresa de Calcutá, que é realmente um exemplo de entrega. Isso significa que é preciso buscar uma santidade que fale ao coração, mas que fale também à inteligência dos cristãos.
Folha: A questão da ética nas relações humanas é um tema que interessa hoje à Igreja Católica?
Padre Beozzo: O que eu consideraria o terceiro desafio fundamental é justamente o desafio da ética. Houve uma espécie de desabamento dos princípios éticos tradicionais. E não adianta apenas criticar, xingar. É necessário discutir profundamente, por exemplo, qual a ética hoje para o mundo da ecomonia. Qual a ética no mundo da pesquisa genética? Queremos ter esses embriões estocados? Que fim dar a isso?
Folha: Mas o cientista não deve ser livre para pesquisar?
Padre Beozzo O direito da ciência investigar obviamente deve ser assegurado. Mas qual a responsabilidade humana nestas pesquisas? Você pode alterar gens das pessoas? Em tudo deve-se ter uma ética. Vi recentemente uma notícia nos jornais: 80% das mulheres do Maranhão entre 15 e 54 anos estão esterilizadas. Isso é ético? Elas tiveram escolha? Há ainda a ética da política. Estamos assistindo a estas CPIs todas, que podem ser reflexo de um brado da população pela ética.
Folha: Ciência e religião já tiveram divergências sérias ao longo da história. Hoje as áreas parecem mais próximas e alguns cientistas admitem a existência de Deus, diante do inexplicável. Ao mesmo tempo, o homem, a criatura, quer ser um pequeno Deus criando seres humanos em laboratório. Como a teologia vê questões delicadas como a da clonagem?
Padre Beozzo: Obviamente fazer experiências com gente não é a mesma coisa que fazer uma experiência, por exemplo, com um novo produto químico. Toda investigação pode ser a princípio boa, mas o uso do resultado pode não ser bom. Você investiga o átomo, uma experiência fundamental em física, mas resulta em bombas atômicas ou tragédias como a de Chernobil. Enfim, são três aspectos a se considerar: a legitimidade da investigação; o cuidado com o ser humano e o uso das pesquisas. O cientista não pode ser o seu único juiz. A sociedade financia estas pesquisas, e é preciso que haja padrões de respeito ao ser humano. Quem aprovaria as pesquisas com negros na década de 20 nos Estados Unidos, quando numa experiência de combate à tuberculose, deram placebo a um grupo de pessoas? Isso é criminoso. Da mesma forma é criminoso o que fez o doutor Mengele injetando vírus em seres humanos. A sociedade deve assumir reponsabilidades na discussão sobre a ética das pesquisas.
Folha: Qual a visão que a Igreja Católica tem hoje do demônio?
Padre Beozzo: Vamos começar por uma questão mais interessante: a experiência que a gente tem do mal. O mal físico, a doeça; os males sociais, a guerra, a miséria; o psicológico, tudo aquilo que pode ferir o outro. E temos o mal radical, que é a morte. A morte do ser humano, dos rios, das florestas. Esta questão está no coração do homem. Em confronto com ela, as pessoas querem uma explicação. Às vezes o mal é tão visível, tão identificado, que a gente chega a dizer ’’essa pessoa é um demônio’’. Alguém que fez um mal danado, como o Maníaco do Parque, por exemplo, acaba se tornando uma personificação do mal. Há uma tendência histórica de o ser humano personificar o mal, fazer dele um deus, como se houvesse um deus do bem e um deus do mal. Isto o cristianismo nunca aceitou.
Folha: De qualquer forma, o demônio bíblico continua existindo...
Padre Beozzo: Desde o princípio temos o demônio, mas a visão que sempre prevaleceu é a de que não se deve personificar o mal. Aliás, não devemos acreditar no demônio como causador de tudo. O mal tem muitas causas. O homem criou a violência no trânsito, a manipulação genética. A gente cria estas causas e tem responsabilidades perante Deus, perante a sociedade e perante outros seres humanos.
Folha: A Igreja Católica teve dÚcadas atrás forte identificação com as causas dos excluídos, como no momento histórico que deu origem à Teologia da Libertação. Não é estranho que a Igreja se fortaleça hoje baseada em um movimento de classe média, o carismático, gerando fenômenos de mídia como Padre Zeca e Padre Marcelo?
Padre Beozzo: Temos dois pontos a considerar: um é que camadas inteiras da população que passaram por um processo de secularização nas grandes cidades, acabaram sentindo um imenso vazio com a perda dos referenciais religiosos e reencontraram este espaço de expressão no movimento carismático. É algo que vem desde 1968, com o padre norte-americano Harold Ham, jesuíta de Campinas, que desenvolve grande trabalho na recuperação de drogados. Ele trouxe o movimento carismático para o Brasil e este espaço religioso nas grandes cidades atraiu principalmente a classe média. Outro ponto é este fenômeno mais recente, ou seja, o fortalecimento na mídia de expressões do movimento carismático, as missas de cura, os cantos modernos. Temos de separar as coisas. Uma é o movimento e outra, a emergência nos meios de comunicação de determinadas pessoas e manifestações.
Folha: Não há risco de que estas manifestações acabem se afastando dos chamados dogmas da Igreja?
Padre Beozzo: Acredito que padres como os que foram citados tornaram-se para muitas pessoas a única maneira de reencontrar o espaço de experiência religiosa, de oração com maior liberdade. Mas o que temos é um movimento tipicamente leigo. Os aspectos menos positivos são praticamente dois. Essa extrema importância à subjetividade pode levar ao descuido de fundamentos mais doutrinários da religião. O caminho dos sentimentos não pode descuidar das exigências da razão. O próprio papa João Paulo II diz que sem a razão, facilmente se vai para a crêndice e a superstição. Há necessidade do crivo da razão na experiência religiosa.
Folha: O senhor falou em dois aspectos ’’menos positivos’’. Qual é o outro?
Padre Beozzo: Em países como o nosso, que tem um apartheid social tão profundo, o cristão não deve deixar de se comover e assumir com o que é aos olhos de Deus inaceitável. Isso não é simples para as classes que estão em ambiente social à parte. Moram em condomínios fechados, colocam os filhos em escolas particulares, o clube é privado, a previdência é privada. Então, por que se preocupariam com a qualidade da escola pública, dos hospitais públicos, com a defesa da saúde para todo mundo? Digo isso não só com relação ao movimento carismático. Esta é uma discussão importante para todas as religiões que se dizem interessadas na sorte dos pobres deste país.
Folha: Diante da situação de ’’apartheid social’’ citada pelo senhor, o que a Igreja pode fazer em termos práticos?
Padre Beozzo: Em primeiro lugar chamar a atenção de todos para a questão dos desempregados. Não se pode tirar milhões do emprego sem ter nenhum colchão, digamos assim, que atenue isso. O seguro-desemprego é uma coisa precária, que não aponta para nenhuma perspectiva de retorno ao trabalho. Uma cidade como São Paulo com 1,7 milhão de desempregados é um caos. Por trás destes números você tem fome, miséria, crianças se envolvendo com drogas, desestruturação da família, suicídio. A sociedade não pode ficar passiva diante de uma tragédia social como essa. O governo não pode dizer que é normal, que vai passar, ou que não tem nada com isso. Tem reponsabilidades política e social. É necessário proporcionar reciclagem para os trabalhadores, criar financiamento popular para pequenas iniciativas. Deve-se impedir que o dinheiro público vá para montadoras automatizadas e não para a construção civil, que gera empregos imediatos, ou para a agricultura. Por que não se redistribui a terra rapidamente para que mais pessoas possam produzir? Por que não há uma ação política que vá à frente do próprio Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra para resolver o problema?
Folha: O senhor acha que todo espaço religioso deve ser usado para esta ação conscientizadora, inclusive as missas?
Padre Beozzo: O espaço da celebração deve ser preservado. Isso não quer dizer que durante o sermão da Campanha da Fraternidade não se deva chamar a atenção para questões sociais. Mas os espaços de concientização política devem ser outros, como os encontros, por exemplo. As igrejas tem que agir nas várias frentes. Embora não caiba a ela fazer plano econômico, deve dizer que é imoral que se desvie todo o dinheiro da saúde, da educação, do atendimento à criança e aos idosos exclusivamente para se manter um modelo econômico. Uma das raízes do problema é a dívida, interna e externa. As igrejas cristãs fizeram recentemente no Rio de Janeiro um grande tribunal da dívida, que a imprensa pouco noticiou. Praticamente todo o dinheiro público hoje vai para pagamento de dívidas, a juros absurdos. A única política do Governo é a de aumentar a arrecadação, criar impostos sob diferentes pretextos. A CPMF era para a Saúde mas está servindo para pagar juros.
Folha: A Igreja Católica não teve um comportamento muito recomendável durante a escravidão de negros e índios no Brasil. Existe um sentimento de culpa em relação a isto?
Padre Beozzo: A Igreja é uma instituição-chave no Brasil, pois assumiu aspectos de catequese, de educação, foi co-responsável pela edificação do País. Vale lembrar que esse País se edificou num regime colonial que negou quase todos os direitos à população local. Sua economia formou-se baseada em um regime escravista. Mas a Igreja não pode fugir da responsabilidade que teve na legitimação do escravismo. Naturalmente houve dentro dela aqueles que lutaram contra a escravização do indígena, como os padres Vieira e Anchieta. No caso da escravidão dos africanos houve uma legitimação religiosa, quase uma apologia da escravização, vista como caminho para evangelização dos negros. Na África estariam ’’condenados no corpo e na alma’’, vindos para cá, continuariam ’’condenados no corpo’’, mas o batismo salvaria suas almas. Havia escravos em conventos, casas de bispos, de padres e nas fazendas dos religiosos. No começo deste século muitas congregrações ainda não recebiam negros. A Igreja tem que reconhecer que cometeu um erro histórico e que deve repará-lo.
Folha: De que maneira?
Padre Beozzo: Não apenas falando, mas investindo a fundo na luta contra a discriminação racial que ainda permanece no País e para que internamente não reste qualquer resquício daquele período.
Folha: Há algum aceno do Vaticano no sentido de se permitir que as mulheres celebrem missas?
Padre Beozzo: A posição oficial neste momento é não. Mas há um avanço importante das mulheres em todos os campos da Igreja. Nos conselhos paroquiais, conselhos pastorais, nas comunidades de base. Na Comissão de Justiça e Paz em São Paulo a presidente é uma mulher. Há restrição, porém, a que elas assumam o sacerdócio, o ministério ordenado. Outras igrejas cristãs já abriram espaço com ordenação, até para o episcopado.
Folha: Uma questão que sempre vem à tona no País é a do sincretismo religioso. Há mais tolerância hoje do que havia alguns anos atrás?
Padre Beozzo: Na verdade não existe religião que não seja sincrética. Todas acabam incorporando alguma coisa no contato com outras religiões. O cristianismo tem na origem religiões na Bacia do Mediterrâneo. Celebramos a Páscoa na primeira lua cheia do primeiro mês do ano judaico. No começo não havia esta celebração na Igreja Cristã. Comemorava-se a cada semana, no domingo, a Ressurreição. Sincretizou-se com a tradição judaica. Durante três séculos, não se celebrou o Natal, pois não se sabia em que dia Jesus nasceu. Passou-se a celebrar na data da festa principal do Império Romano, a festa do solstício de inverno, em que se celebrava o ’’Sol Invictus’’, o ’’Sol Invencível’’. Daí se sincretizou a festa, celebrando-se Jesus como o sol da justiça, o que ilumina, etc. Sincretizou-se, pois, com uma festa romana pagã.
Folha: E na Bahia, a tolerância é maior do que em outras regiões do País?
Padre Beozzo: Em algumas paróquias da Bahia você encontra rituais como o da lavagem da igreja. Quem faz isso são as filhas-de-santo. Antes eram as negras escravas que lavavam as igrejas para as festas. Acabou a escravidão, elas continuaram, como parte de um rito a Nosso Senhor do Bonfim, ou Oxalá. Você se batiza mas não tem como evitar que parte de sua cultura, de sua tradição, permaneça. Acho que é um processo normal e enriquecedor exprimir sua experiência de Deus a partir de sua raiz mais profunda, que é a cultura.

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