Rio, 24 (AE) - A vice-governadora do Rio, Benedita da Silva (PT), anunciou hoje que recorrerá da anulação da criação de 40 núcleos do partido e processará o dirigente petista Antônio Neiva, que, na reunião na qual foi tomada a decisão, disse que as irregularidades "tinham as digitais da vice-governadora".
A maioria da direção do partido anulou ontem (23) a fundação de 141 núcleos supostamente ligados à Articulação, por suspeita de fraude. Segundo Benedita, Neiva terá de provar o que disse.
"Chega!; para mim, eles extrapolaram, foram longe demais; não vou me manter calada diante disso; vão ter de provar", afirmou a vice-governadora, que, antes de anunciar o processo, conversou a respeito com o presidente nacional do PT, deputado José Dirceu (SP), por telefone.
"As minhas digitais estão na minha carteira de identidade, na minha carteira de trabalho, estão na organização do movimento social." Benedita lembrou ter sido eleita pela quinta vez e disse que os opositores no PT não têm a legitimidade e representatividade e querem atingir o governo estadual.
Neiva disse reafirmar o que dissera. "Estou com a consciência tranquila; a Benedita pode processar-me à vontade", disse. "Vamos demonstrar que a responsabilidade política (pelas supostas fraudes) é dela." Ele declarou que a facção da qual faz parte (Refazendo) deverá propor que, no Rio, só votem nas convenções de 1999 filiados até 31 de dezembro de 1998 em razão da impossibilidade de checar as filiações. "O processo do Rio está totalmente contaminado." A criação de núcleos é parte da disputa pela eleição dos delegados que elegerão as novas direções, que conduzirão o processo em 2000, ano eleitoral.
A vice-governadora explicou que recorrerá porque foram anulados núcleos "regularmente criados" junto com os fundados pelo ex-candidato Roberto Marcos dos Santos, o "Gaguinho", expulso do PSDC em 1998 sob acusação de vender legenda. Filiado ao PT, "Gaguinho" criou 101 (e não 77, como se pensava inicialmente) núcleos suspeitos, sediados em sua casa, em reuniões cujas atas têm os nomes de Mauro Ramos, o "Mauro Alemão", da Articulação, e Wilson Ricardo, de um órgão estadual comandado pela vice-governadoria. Os outros 40 núcleos anulados, que a vice-governadora disse serem legítimos, foram criados por Valério da Silva, da mesma facção.
Um dos argumentos que pesaram para a anulação dos núcleos criados por Silva foi a edição de 15 de maio do jornal comunitário "Eco Status", no qual ele aparece com um assessor de Benedita, Antônio Galúzio, na fundação do Núcleo Tia Amélia, em Guaratiba, na zona oeste, ao lado de Merci de Lacerda. Lacerda foi candidato a deputado pelo PSD em 1998 e a vereador pelo PMN, em 1996. "Quem quiser fundar um núcleo em sua casa, é só me procurar, e nós fundamos", disse Lacerda, segundo o jornal.
Galúzio defendeu-se, dizendo fazer um trabalho comunitário na região, onde há ocupação de terras. "Mauro Alemão" também se eximiu de culpa, argumentando que os núcleos foram criados no calor da campanha eleitoral de 1998 e não sabia quem era "Gaguinho". "Se houve falha, foi o açodamento na criação de núcleos, mas, se é feito assim, é por uma falha do regimento." O grupo de Benedita votou sozinho no diretório (apenas 11 votos) e perdeu todas as disputas. O diretório resolveu expulsar "Gaguinho" e também anular as filiações dos núcleos suspeitos (cerca de 1,7 mil). Os 141 núcleos dissolvidos equivalem a 37,2% dos 379 que tinham condições de eleger delegados na cidade, por terem sido criados até 7 de maio.
A Articulação votou contra a criação de uma comissão de ética para investigar o caso, mas perdeu. Um dos dirigentes regionais do grupo, William Campos, acusou o autor da proposta, vereador Adilson Pires, de querer ressuscitar politicamente atacando Benedita. A Articulação teme que a investigação seja dirigida contra a vice-governadora. Segundo um cabo eleitoral, cuja identidade é mantida em sigilo, "Gaguinho" ofereceu-lhe dinheiro e empregos em nome de Benedita para criar núcleos, acusação que a vice-governadora repudia. Em 1998, derrotada na convenção regional, a Articulação pediu intervenção no Rio.

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