Belgrado e ortodoxos tentam convencer sérvios a ficar em Kosovo
Belgrado, 09 (AE-ANSA)- As autoridades de Belgrado, com a ajuda dos líderes da igreja ortodoxa, tentam convencer a população sérvia a permanecer em Kosovo após a chegada da força internacional de paz e do regresso das dezenas de milhares de refugiados.
O arcebispo ortodoxo Artemije e Momcilo Trajkovic, chefe da resistência sérvia em Kosovo, hostil ao governo de Belgrado, pediram hoje (09) aos 2.000 sérvios que se reuniram no centro de Pristina que permaneçam no território da província sérvia de maioria albanesa.
"Sair significa não voltar jamais", afirmou Trajkovic ao pedir proteção para os 100.000 sérvios que atualmente vivem em Kosovo (que há dois anos eram 200.000), pois "a paz só pode ser devolvida com uma vida em comum".
O líder da resistência disse que "vinganças e represálias não são a resposta", mas apesar de ser "a favor da paz, os sérvios não se deixarão degolar como cordeiros".
Artemije - um crítico da política iugoslava - lembrou que Kosovo é um lugar sagrado para os sérvios. "Não permitiremos que os locais sacros sejam abandonados pelo povo ao qual pertencem", acrescentou Artemije, dizendo que fazê-lo representaria um "erro histórico que nunca poderá ser reparado".
Para as autoridades de Belgrado, esta é a última chance de salvar Kosovo, já que se todos os sérvios deixassem o território
nele permaneceriam apenas os albaneses com as tropas da ONU e uma administração civil das Nações Unidas. Se for assim, o regime de Belgrado teme que em poucos anos Kosovo poderá pedir facilmente sua independência da República Iugoslava.
Não é de se estranhar que um dos principais pontos das negociações de Kumanovo seja o possível vazio que se produzirá em Kosovo entre a retirada dos sérvios e a chegada das tropas da Otan a seu território. E mesmo que se trate apenas de um vazio de 24 horas, poderiam ser desencadeadas represálias da guerrilha secessionista kosovar contra os sérvios, que fugiriam em questão de horas. Os primeiros sintomas de uma possível repressão e o medo dos sérvios de Kosovo por começarem a ser notados.
Segundo a agência oficial iugoslava Tanjug, três civis sérvios foram assassinados ontem pelo Exército de Libertação de Kosovo (ELK) perto de Orahovac enquanto um pastor de 61 anos, identificado como Dobroslav Maksimovic, foi assassinado segunda-feira nas proximidades de Prizren.
Nos últimos três dias, alguns civis foram vistos perto de Pristina carregando seus automóveis e furgões com a maioria de seus pertences. Segundo fontes sérvias, cerca de 150 famílias desta etnia deixaram a região nas últimas 24 horas.
Em uma tentativa desesperada de manter uma presença sérvia em Kosovo, Artemije e Trajkovic enviaram carta ao secretário- geral da ONU, Kofi Annan, e aos presidentes do G-8. Nela, pedem que "todos os sérvios permaneçam em Kosovo, que o ELK seja desarmado, que sérvios e montenegrinos também participem das negociações e que se incentive o regresso obrigatório de todos os sérvios que abandonaram o território kosovar desde 1941".
O partido socialista do presidente iugoslavo Slobodan Milosevic também iniciou uma campanha para convencer os sérvios a ficar em Kosovo, a cuja capital chegou hoje o secretário-geral do partido, Gorica Gajevic, e o presidente do parlamento iugoslavo, Milomir Minic.
Perante estudantes e professores da Universidade de Pristina, Gajevic pediu para "salvaguardar o território e contribuir com seu desenvolvimento e prosperidade. Fizemos todo o possível para evitar a agressão, faremos ainda mais para proteger nosso povo"
acrescentou.
O Partido Democrático (DS), liderado por Zoran Djindjic, solicitou hoje "medidas de segurança para a população sérvia" de Kosovo. Djindjic propôs uma reunião entre os representantes sérvios de Kosovo e os três mediadores para a paz ns Bálcãs, o russo Viktor Chernomyrdin, o presidente finlandês, Martti Ahtisaari, e o vice-secretário de Estado norte-americano, Strobe Talbott. "Se não houver a reunião, não será possível a permanência dos sérvios em Kosovo e assistiremos a uma nova tragédia humana", finalizou o DS em comunicado.





