Belgrado, 08 (AE-REUTERS) - "A única vez em que nos ajoelhamos é quando fazemos uma proposta de amor", disse um jovem sérvio, parando por um momento o abraço e o beijo que dava em sua namorada na praça central de Belgrado.
Ele garantia que a chuva de bombas não irá forçar o povo de Belgrado a curvar-se à Otan.
"Eles podem nos matar, mas eles não podem fazer com que nos rendamos", declarou o jovem, que deu apenas seu apelido, Crni (Negro).
Ele era um das dezenas de milhares de pessoas que têm se reunido diariamente na Praça da República no centro da cidade para ver concertos de rock e músicas folclóricas promovidos em desafio aos ataques da Otan.
Eles cantam e dançam, expressando sua ira ao Ocidente com piadas amargas e letras emocionais.
Ao redor deles alto-falantes propagam a música ao vivo e a multidão canta uma mensagem ao presidente Bill Clinton.
"Não se incomode Bill, nós vamos vencer", é o refrão.
"Desculpa, estamos cantando", lê-se em um dos vários cartazes que eles carregam, prometendo resistir às bombas da Otan pelo tempo que for preciso.
Desde 24 de março, quando a Otan deu início aos ataques punitivos contra a Iugoslávia, a universidade, escolas e muitas outras instituições suspenderam suas atividades para permitir que as pessoas mergulhem em abrigos antiaéreos quando as sirenes de aviso começam a soar.
Mas muitas pessoas ignoram o perigo e preferem vir ao concerto mesmo quando as sirenes tocam.
Dezenas de músicos, atores e outras celebridades participam dos concertos todos os dias, enviando à multidão mensagens patrióticas. "Vamos permanecer unidos, eles não podem fazer nada conosco, estamos protegendo nossa cidade e nosso país", disse um cantor.
Tais mensagens estão funcionando. As pessoas respondem gritando "Sérvia, Sérvia!"
Faixas agitadas acima da multidão trazem mensagens que expressam o sentimeno antiocidental e especialmente antiamericano deles.
Uma, segura por uma adolescente, dirigia-se à filha de Clinton, Chelsea.
"Senhorita Chelsea, como se sente tendo um pai que assassina crianças?", estava escrito.
No outro lado da praça, pessoas faziam fila para conseguir ingresso para o Teatro Nacional, alguns comprando flores enquanto isto. Mais de 10 teatros da cidade têm apresentações diárias apesar dos alertas de ataques aéreos que soam todas as noites.
Jogos antiguerra de basquete e de futebol são disputados, como um amistoso internacional na quarta-feira entre o Partizan de Belgrado e o AEK de Atenas que incentivou sentimentos anti-Otan e pró- cristãos ortodoxos.
"Tentamos viver normalmente e vir todo o dia em grande número a estes concertos para mostrar a eles o que significa orgulho, dignidade, amor e senso de humor e uma nação sadia", afirmou Boris Nikic, um engenheiro de 29 anos.
Nikic disse que nunca havia apoiado antes o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic. "Ao contrário, eu tive até de sair da companhia em que eu trabalhava, porque eu criticava abertamente Milosevic", afirmou.
"Mas o Ocidente cometeu um erro agora. Eles não estão punindo Milosevic como dizem, mas o povo deste país. Isto simplesmente não funciona. Esta agressão irá apenas preservar o poder de Milosevic por muitos anos, não importa qual seja o fim desta guerra".
Pouco mais de dois anos atrás, pessoas como Nikic carregavam bandeiras americanas, britânicas, francesas e mesmo alemãs pelas ruas de cidades sérvias numa campanha pró-democracia que durou três meses., tendo sido rotulados de traidores pela mídia pró-governo.
As mesmas pessoas que então se movimentaram contra Milosevic, agora queimam bandeiras das democracias ocidentais.
"É isto que eles (os EUA) realmente são", disse um menino, sentado numa grande lata de lixo pintada de branco, com uma inscrição em inglês dizendo: "Casa Branca - apenas lixo".

mockup