KIGALI, Ruanda, 07 (AE-AP) - Milhares de pessoas se concentraram hoje (07) num campo aberto que se tornará o memorial do genocídio de Ruanda, e ouviram silenciosamente o primeiro-ministro da Bélgica assumir que seu país tem parte na culpa do fracasso do mundo em agir durante 90 dias de matança em 1994.
A cerimônia foi uma das várias realizadas em todo o país para marcar o início seis anos atrás do assassinato orquestrado pelo governo de mais de meio milhão de pessoas.
"Eu não sei se um dia saberemos se os terríveis eventos de 1994 poderiam ter sido evitados. Mas estou convencido de que poderíamos ter feito mais, e poderíamos ter feito melhor", afirmou Guy Verhofstadt aos ruandeses.
"Uma combinação dramática de negligência, incompetência e hesitação criou as condições para a tragédia", acrescentou.
Ele tornou-se o segundo líder mundial, depois do presidente americano, Bill Clinton, a assumir uma parte de responsabilidade pela inação mundial enquanto eram empilhados os corpos da minoria tutsi e de politicamente moderados hutus.
A Bélgica, potência colonial em Ruanda até 1962, ofereceu o núcleo da força de paz da ONU enviada em 1993 para se interpor entre o então governo extremista hutu e os rebeldes liderados pelos tutsis.
Mais cedo, em tom amargurado, Guy Verhofstadt acusou o comando da ONU de ter se omitido de prestar socorro a 10 soldados belgas da força de paz e ao primeiro-ministro a quem protegiam quando começou o genocídio em Ruanda.
Acompanhado de familiares dos soldados mortos, alguns em lágrimas, o primeiro-ministro prestou homenagem ao heroísmo dos soldados no lugar onde foram assassinados. Ele questionou por que ninguém foi em socorro deles durante as longas horas de cerco que precedeu suas mortes em 7 de abril de 1994.
Verhofstadt disse que os 10 soldados, parte de um contingente de 1.500 belgas, lutaram por mais de três horas contra forças numericamente superiores e, "por razões imcompreensíveis, nada foi feito para salvá-los". Ele acusou o comando da organização de ter sido "hesitante" na direção de uma força "mal planejada e mal equipada", e que demonstrou um "nível absurdo de falta de responsabilidade".
Os belgas estavam dando proteção ao então primeiro-ministro ruandês Agathe Uwilingiyimana quando foram desarmados por soldados do ex-governo ruandês e conduzidos às barracas do Exército montadas em Camp Kigali, no centro da cidade, onde, depois de terem sido espancados, foram mortos a golpes e tiros e seus corpos, mutilados. Uwilingiyimana, um hutu moderado, também foi morto pelos hutus enfurecidos.
O genocídio foi incentivado pelo governo após a derrubada do avião que conduzia o presidente Juvenal Habyarimana, também de etnia hutu. A maior parte das tropas da ONU foi retirada de Ruanda horas após o início da matança, deixando tutsis e hutus, as etnias rivais no país, entregues à própria sorte. Por isto, tem sido questionada a falta de empenho que marcou a decisão sobre o caso por parte dos 15 membros do Conselho de Segurança da ONU na ocasião.

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