Belga "Rosetta", de Luc e Jean-Pierre Dardenne ganha Palma de Ouro Do enviado especial LUIZ CARLOS MERTEN
Cannes, 23 (AE) - David Lynch e Takeshi Kitano foram os grandes derrotados do 52º Festival International du Film, que terminou hoje (23), especialmente o cineasta americano. Havia muita expectativa entre os críticos de que Lynch recebesse sua segunda Palma de Ouro (a primeira foi por Coração Selvagem, em 1989). Lynch não ganhou prêmio algum, nem Kitano, que concorria com Kikujiro. A Palma de Ouro foi atribuída ao filme belga Rosetta, de Luc e Jean-Pierre Dardenne.
Talvez tenha sido o filme mais exasperante do festival. Rosetta, interpretada por Emilie Duquenne, que dividiu com Sevérine Caneele (de LHumanité) o prêmio de interpretação feminina, é uma garota belga desempregada. Ela mora com a mãe bêbada num camping. No desespero de conseguir um emprego, delata o único homem que a ajudou, só para ficar com o lugar dele. No fim, Rosetta tem uma crise de desespero. Joga-se ao solo e chora. Neste momento, o homem que ela traiu lhe estende a mão. É bonito, é sensível, mas, para chegar a este desfecho emocionante, os irmãos Dardenne fizeram o filme todo com a câmera na mão, produzindo no espectador um sentimento de vertigem. É um mundo miserável e totalmente instável que eles mostram.
A escolha do júri presidido por David Cronenberg foi recebida com vaias pela maioria da crítica, confirmando a impressão de que o autor de A Mosca não é mesmo confiável. Mas a palma, segundo o comunicado do júri, foi atribuída por unanimidade.
A preferência do público ia para Pedro Almodóvar, por Tudo sobre Minha Mãe. O diretor espanhol, que atravessa a melhor fase de sua carreira, recebeu o prêmio de direção.
Aplaudido de pé - foi o único prêmio que provocou esta reação -, ele se ajoelhou para agradecer. O público não parou de aplaudir enquanto Almodóvar fez seu discurso.
Ele dedicou o prêmio às atrizes (Marisa Paredes estava ao seu lado, na platéia) e à democracia espanhola. Disse que seu cinema é produto desta última, que lhe deu a liberdade de criar. Além do prêmio de direção, Almodóvar também recebeu, surpreendentemente, o prêmio do OCIC, o Office Catholique International du Cinéma. Na justificativa, o júri do OCIC diz que o cineasta cria situações e personagens nem sempre fáceis de aceitar.
Em Tudo sobre Minha Mãe, um travesti aperta nos braços seu filho. Ele está morrendo de aids, contaminou a mãe da criança, que morreu. O júri católico exaltou o mundo de sentimentos que Almodóvar soube criar. Se o júri tivesse feito a coisa certa, ele teria recebido a palma, mas Cronenberg, com seu racionalismo bizarro, não é homem para entender o melodrama segundo o endiabrado diretor nascido na Mancha.
Não se pode esquecer que o júri tinha duas pessoas de confiança do polêmico autor canadense: os atores Jeff Goldblum (com quem ele fez A Mosca) e Holly Hunter (de Crash).
Como sempre, a festa de premiação, apresentada por Kristin Scott- Thomas, foi uma sucessão de trapalhadas. Falando sempre num francês sofrível, Cronenberg anunciava os prêmios com atraso, criando hiatos constrangedores na cerimônia. Numa hora, Val Kilmer, outro dos apresentadores, chegou a dizer que o vencedor de um dos prêmios seria anunciado a seguir, se Cronenberg se dignasse a dizer quem era.
O prêmio da Caméra dOr, para filmes de diretores estreantes, foi para o indiano Murali Nair, por Marana Simhasanan. O presidente do júri que outorgou este prêmio, o ator Michel Piccoli, provocou risadas ao dizer que a Caméra dOr, para diretor estreante, tinha ido para Manoel de Oliveira.
O mestre do cinema português, o mais velho cineasta do mundo em atividade, não foi esquecido por Cronenberg e seus amigos. Recebeu o prêmio do júri por A Carta. Não é um de seus bons filmes. Nos últimos anos, Oliveira tem nos acostumado a um ritmo binário. Alterna bons e maus filmes. Depois de Viagem ao Princípio do Mundo fez O Convento e, depois de Inquietude, que passou em Cannes no ano passado, decepcionou agora com A Carta, baseado no romance de Madame La Fayette A Princesa de Clves, que inspirou um filme de Jean Delannoy por volta de 1960. O filme francês antigo, escrito por Jean Cocteau, é de época. O de Oliveira desenrola-se na época atual, com sua madame de Clves que se apaixona por um um roqueiro (Pedro Abrunhosa, fazendo o próprio papel). O filme vai para a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Se o ridículo matasse, impediria Oliveira de concretizar seu novo projeto, baseado no padre Vieira. Se continuar no seu atual ritmo binário, Os Sermões de Oliveira já é, por antecipação, uma obra- prima.
Mas nada provocou tanta polêmica quanto a decisão do júri de atribuir três prêmios ao filme francês LHumanité, de Bruno Dumont. Foi o filme mais discutido deste festival. Dumont é o diretor de A Vida de Jesus.
Radicaliza a proposta da sua obra anterior. Num certo sentido, ele é o Robert Bresson dos anos 90, com seus temas da dificuldade de comunicação e da graça. Dumont desagradou especialmente à crítica americana presente ao festival. Todd McCarthy, um dos mais influentes críticos dos Estados Unidos, escreveu um artigo meio ofensivo sobre Dumont em Variety.
Entre outras coisas, ele diz que é um absurdo que um diretor como Dumont possa montar os próprios filmes. Acusa o cinema francês de conivência com o chamado "cinema de autor". McCarthy acha que o que falta ao cinema francês atual é aquilo que sobra em Hollywood - produtores dispostos a fazer a montagem dos filmes, tornando-os palatáveis para o público. Dentro deste princípio, McCarthy jogou pesado com o delegado-geral do festival. Só faltou dizer que Gilles Jacob está gagá e precisa ser substituído.
Tudo isto é muito discutível, claro, pois LHumanité é um belo filme, embora muito longo e certamente imperfeito. Estamos aqui a anos luz da galáxia hollywoodiana. O filme mergulha com intensidade no desespero de seus personagens. O protagonista é um pouco o idiota de Dostoievski trazido para a época atual (e para a província francesa). É um policial que investiga um crime hediondo (o estupro e assassinato de uma menina). Ele tem o raciocínio lento, nos limites do retardamento mental. Dumont filma em longos planos- sequência. O filme ganhou o prêmio especial do júri e dois prêmios de interpretação: para Sevérine Caneele e Emmanuel Schotté. A discussão foi tanto maior porque ambos são dois não-profissionais, que Dumont escolheu na região de Flandres, onde filmou. Schotté parecia intimidado ao receber ao prêmio.
Na coletiva realizada, a seguir, tanto ele quanto Séverine e Dumont estiveram a ponto de ser sacrificados pelos jornalistas, que não concordavam com a premiação. Dumont disse que não tinha do que se defender. A decisão foi do júri. Agradeceu, mesmo assim, a Cronenberg por sua coragem.





